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Revolução divinaTerça, 27 de Junho de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Os deuses estavam todos reunidos em sua convenção anual. O fato de que alguns deles não tinham nem mesmo a menor concepção do que fosse um “ano” nunca atrapalhou a reunião, então todos apareceram no local e hora determinados.Deus, deus com “d” maiúsculo, o deus dos cristãos, começou os trabalhos: - Companheiros, estamos diante de um cenário calamitoso. Algo que nunca aconteceu no decorrer de todas as eras, uma hipótese jamais imaginada em nossos piores pesadelos começa a ficar cada vez mais factível. Um murmurinho de dúvida e inquietação passou pelos demais membros da assembléia. Amon, que não era conhecido por sua paciência, deu um berro: - Solta logo a bomba que definitivamente ninguém mais aqui é criança! Jeová, que fazia o papel de vice-presidente da mesa, não conseguiu escolher bem as palavras: - Estamos em vias de desaparecer. Raios estouraram de todos os lados, luzes apareceram e sumiram, ventos fortíssimos assolaram o grande salão em que estavam todos reunidos. Alá levantou e tomou conta da situação: - Amigos, amigos, muita calma nesta hora!! Não se esqueçam que somos deuses, vamos analisar com calma a situação. - Calma? Como assim calma? O que você propõe? Uma dinâmica de grupo? – gritou Shiva. Tyr e Ares, que não por menos eram deuses da guerra, se exaltaram e cada um sacou sua própria arma. - Quem é o responsável por isso? Diga Jeová e nós controlaremos a situação, se é que vocês nos entendem... Com um gesto Jeová pediu para que todos se acalmassem. Quando os últimos gritos se silenciaram ele prosseguiu. - A situação não é tão simples assim... Não existe apenas um responsável. Para dizer a verdade, não sei nem ao certo se podemos dizer que existem responsáveis por essa situação. Corremos o risco de, ao analisarmos de perto e com calma o quadro que se descortina, chegarmos à conclusão que nós mesmos é que conduzimos a história para esse desfecho. Um silêncio pesado caiu sobre a audiência. O primeiro a entender toda a profundidade da questão foi Lee, um velhinho japonês que representava o budismo, uma vez que o conceito de divindade para os budistas é complexo demais para ser representado por uma figura que, eventualmente, seria o deus deles. - Acho que compreendo a questão. Vamos ser esquecidos... Todos olharam para Lee, aguardando que este se fizesse compreender. - É muito difícil para um deus antigo aprender truques novos, os tempos mudaram e com ele a humanidade mudou. Tudo tem uma explicação agora. A ciência opera mais milagres do que nós. A fé está acabando. E sem fé, o que será de nós? - Muito bem apontado, Lee. Não teria dito melhor. – Apontou Deus. Um coro de “o que podemos fazer?”, “e agora?” e “que horas vai ser o coffee break?” foi ouvido por todos os lados. Uma grande pedra, que nenhum dos outros participantes sabia ao certo por quem era adorada, se levantou, na medida em que uma pedra consegue se levantar, e tomou a voz. - Talvez nossa maior falha tenha sido não mostrar para os Homens que eles são o maior milagre que já existiu. – Todos se calaram enquanto a pedra prosseguia. – Que criaturas eles são. Ainda não conseguiram entender que sua existência, se não fosse por sua capacidade não totalmente aproveitada de fazer o bem, seria um erro. Os Homens se transformaram na exceção, na anomalia. Em um universo com bilhões de galáxias, cada uma com bilhões de sóis, são tão poucos os sóis que têm planetas ao seu redor. E destes, quantos suportam a vida? Mesmo sendo um erro de probabilidade, os Homens não se vêem como tal. Nós falhamos em mostrar isso e estamos pagando o preço agora. Cada vez que aparecíamos nos preocupávamos em nos mostrar, em nos fazer temíveis, nossa vaidades agiu contra nós. As palavras caíram como uma, bem, pedra nas cabeças dos demais participantes. Mesmo nas daqueles que não tinham uma propriamente dita. Demorou um tempo até que alguém tivesse a presença de espírito santo de continuar. Jeová retomou os trabalhos. - Acho que a idéia de uma dinâmica de grupo já não parece tão sem sentido assim, não? E foi assim que todos se dividiram em times, cada grupo com a incumbência de montar um organograma e um fluxograma de ações para reverter a situação. O resultado ainda estamos para ver, já que ninguém aqui ainda se deu conta de que um pouco de fé nunca é demais.
Não dêem muita atenção ao
Tiago Barizon | Uma pitacada
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