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Reunião no circo

Segunda, 12 de Setembro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Todos vão sentando-se, mas a sala não é muito grande, logo o local vira um pandemônio quando um urso amestrado senta-se em uma das contorcionistas, que inicia a gritaria.

– Ordem, ordem, parem com isso que a reunião precisa começar... e, não sei se sabem, mas o fato de esta cartola estar na minha cabeça significa que eu tenho que organizar esta bagunça. Portanto, parem de gritar e comecemos.

– Eu primeiro, eu primeiro! – gritou alguém que o homem-da-cartola não conseguia ver.

– Quem!? Quem está gritando? – perguntava o homem-da-cartola.

– Eu, aqui ó, o Erva-Doce – retrucou o anão Erva-Doce, meio que encoberto por um dromedário.

– Ah, é você. Mas o que é desta vez?... Ei, Froida, dá para levar estes animais lá para fora!? Aquele camelo ali está babando em tudo... – esbravejou o homem-da-cartola.

– Dorothy não serrr uma camelo. Ela serrr um dromedária fêmea, sr. E ela ter sentimentos – respondeu Froida, a domadora, que completou – E eu trazer os animais, por saber que aquela homem-pequeno é uma mentirrroso.

– Mentiroso nada, mentiroso nada. Você sabe, sua nazista, que seu maldito tigre comeu a minha pequena Limba – disse o anão pra lá de histérico.

– Não sei do que esta monstrinha está falando – rebateu Froida, dissimulada. – Mas o que eu querrro saber é quem pegou minhas pulgas amestradas e não devolveu, né senhorrrita Sabrina?!

– Ora, cale-se, bruxa velha – se adiantou Sabrina, a mulher-barbada, mesmo sendo surpreendida coçando os longos fios que desciam de seu queixo.

– Hipócrrrita!!! – gritou Froida.

– Parem, já falei para se calarem – tentou uma vez mais o homem-da-cartola. – Sabrina o que é isso aí na sua barba?

– Isso o quê!? – despistou Sabrina e acrescentou com o um risinho nervoso – Ah!, são luzes. Achei que ficaria arrojado...

– Mas vocês estão querendo me levar à falência!? – bateu na mesa o homem-da-cartola – Como poderei apresentar num circo uma mulher-barbada com mechas loiras!? Ó, meu Deusdocéu!!!

– E a Limba, o tigre comeu a minha pequena Limba? – retomou Erva-Doce. Esta nazista aí, deu ela de comer para o tigre...

– Homenzinha mentirrroso. Foi uma acidente.

– Calem-se, não me façam usar o chicote. Froida, que porra de acidente foi esse?

– A mulherrrzinha caiu na jaula. Ed estava com muito fome. Pronta. Acidente. – emendou Froida, interrompida por um jato d´água que lhe acertou a cara. – Ei, parrre com isso, sua palhaço idiota ou faço você comer está florrr de plástico.

– Isso, Marmelo, dá nela, esta vilã. – agitou-se Erva-Doce.

– Pare com isto já, Marmelo. Não quero saber de água, truques nem ameaças. Entenderam!? – de novo, aos berros, o homem-da-cartola.

– E meus pulgas? Diga para este barbuda me devolver tudo... – disse Froida. – Olhe lá, Gilberta estar no mecha loira dela.

– Me dá isso aqui – adianta-se Erva-Doce que num salto pegou a pulga da barba de Sabrina – Agora veja isso, sua nazista.

"Plec", e lá se foi Gilberto, a pulga.

– Nãããããããããããããããoooooooooo!!!!!! – enlouqueceu Froida – Ed, pegue-o!

E o tigre pulou por cima dos palhaços, abocanhando Erva-Doce pela cabeça. Tudor tentou cuspir fogo para afastar o tigre, mas como estava meio bêbado pelo querosene ingerido, errou o alvo e colocou fogo na barba de Sabrina, que gritava.

O homem-da-cartola pedia calma, nervoso. Vendo todos correndo, ele, por fim, foi se acalmando e perdeu-se em um flashback diante daquela cena de destruição. Lembrou-se de seu início de carreira quando era apenas o homem-bala. Podia ouvir o rufar dos tambores em sua mente e por fim atirou-se pela vidraça, caindo morto, apesar de, estranhamente, estar a apenas um andar de altura. 

escrevi e saí correndo: Fábio Inverídico | 2 comentários