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Que a terra lhe seja leve

Quinta, 22 de Junho de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Nada havia naquele cômodo. Na portaria apenas Afrânio com o rádio fanho narrando o jogo. Todo no mundo estava prestando atenção ao jogo da Copa. Mas naquele cômodo nada disso entrava. Tudo parecia denso, pesado.

O ar podia circular em todo o lugar, mas ali ele sentava. Ar que quase precisava ser mastigado para depois tragar-se. As cores variavam pouco mas todas lembrava o marrom, até o verde e o azul.

Tudo naquele cômodo era tão triste, que nem a tristeza ali ousava entrar. Mas o bêbado sim. Afrânio não deve ter prestado atenção nele. Pudera. Ninguém presta atenção nestes bêbados de rua, que volta e meia escapam por um triz do atropelamento.

Aquele cômodo inóspito não o ameaçava. Segurando a velha boina encardida contra ao peito, abriu o paletó surrado e tirou uma garrafa de plástico com pouco mais de dois dedos de cachaça. Deu uma bicada depois de brindar o ar.

Derramou um pouco sobre o corpo. Mas logo o radio fez Afrânio gritar gol e uma saraivada de fogos o acompanhou no estrondo.

O velho assustou-se e, ao sair em carreira, trombou com dois castiçais de prata que se estatelaram no chão. Afrânio foi conferir o cômodo. O morto ainda estava lá. Um carro arrastou pneu na rua e desta vez o triz não salvou o bêbado.


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