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Promessa é Dívida

Terça, 7 de Fevereiro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Não havia uma senhora mais beata do que Da. Adélia na pequena cidade de Ibirapurama do Norte. Uma nota de pouca importância nessa história é o fato de que não existia nenhuma outra cidade com o peculiar nome de Ibirapurama. O “do Norte” foi acrescido depois de uma manobra muito da ardilosa de um prefeito vigarista que não conseguiu fazer nada de notório durante seu mandato, mas quis deixar sua marca.

Pois é nesta insólita cidade de 2.341 habitantes que nasceu e viveu toda sua história Da. Adélia, vinda de uma longa casta de senhoras muito respeitadas e de cavalheiros imaculados. Diziam pela cidade que a boa velhinha, assim como todas as mulheres de sua família, iriam para o outro mundo assim como vieram para este, sem serem defloradas.

Da. Adélia participava de todas as missas da igreja, em todos os horários, todos os dias. Era responsável por algumas das aulas de catecismo, corria a cidade buscando prendas para o bingo beneficente organizado pela Liga de Senhoras e Damas, que inocentemente era chamado pelos freqüentadores de Bingo LSD. Além disso, era conhecida em toda a cidade e arredores por ser pouco apegada aos bens materiais e ao dinheiro em espécie, transformando-se com o tempo em uma segura fonte de empréstimo a fundo perdido. Invariavelmente todos habitantes de Ibirapurama pediram um dinheirinho emprestado a Da. Amélia, fosse a criançada chorando por trocadinhos para o sorvete, fossem comerciantes que precisavam de somas mais vultuosas para pagar máquinas novas ou produtos para o estoque. Como seus gastos eram mínimos e sua conta bem gorda, Da. Adélia emprestava com todo o prazer. Com os patacos na mão, não havia um que não replicasse:

- Deus lhe pague, Da. Adélia.

Ao que ela retribuía com um sorriso típico das nonas italianas ao terem sua pasta elogiada pelo mais querido dos netos.

Assim foi durante muito tempo. Até que aos avançados 93 anos Da. Adélia faleceu. O médico da cidade disse que foi durante o sono, que provavelmente a bondosa senhora não sentiu dor alguma. Todos choraram por Da. Adélia. Alguns por ela e por empréstimos que não mais receberiam. O prefeito instituiu luto de três dias, os quais passados viram a cidade voltar ao seu ritmo normal. Lento quase parando.

Não muito longe dali, em um lugar em que distância e tempo, para falar bem a verdade, não significavam quase nada, embora agitassem algumas partículas de energia que lembravam de alguma forma convenções meramente humanas, Da. Adélia chegou ao céu. Foi recebida, como manda o protocolo utilizado para velhinhas beatas que fazem brigadeiros deliciosos, por São Pedro em pessoa.

- Bem vinda, Da. Adélia! – disse São Pedro, numa voz que faria o mais retumbante dos trovões parecer um tirinho de espoleta.

- Obrigada São Pedro. Sinto-me honrada por ser recebida pelo senhor, em pessoa. Ou algo parecido com isso. Desculpe-me a objetividade e a falta de rodeios, mas preciso falar com seu chefe.

- Com quem?!?!?

- Oras, seu chefe, o Todo Poderoso, Deus... Aquele da barba e da túnica branca. Embora eu tenha a impressão que isso descreve uns 90% da população local, né?

- Mas Da. Adélia, Ele não recebe assim, sem hora marcada, além do que...

- Pode parar! Durante 93 anos eu O recebi sempre que precisava, agora acho que Ele pode arrumar um espacinho na santa agenda. Vai ser só cinco minutinhos... – Da. Adélia disse ao entrar rapidamente pelas portas do céu – É por aqui, não?

- Espere, mas... – São Pedro bem que tentou impedi-la, mas para uma alma desencarnada de uma senhora de 93 anos, ela era bem ágil.

Não foi muito difícil para Da. Adélia encontrar o escritório de onde Deus despachava. Era o espaço mais suntuoso e ornamentado de todo o céu, por mais infinito que ele fosse. Depois de um olé espetacular com o qual driblou a Sua secretária, Da. Adélia entrou na sala de Deus. Ela O encontrou com os pés em cima da mesa, brincando com uma daquelas bolinhas anti-stress, que aos seus olhos pareceu muito com o globo usado por sua professora nas aulas de geografia, falando ao telefone.

- Hã... Er... Então filhão, acho que temos uma situação aqui, tenho que desligar agora. E não, você não pode usar o carro hoje. – Bateu com o fone do gancho, virou-se para a pequena senhora que estava diante de Sua mesa. – Pois não?

Se a voz de São Pedro tinha aquele efeito de transformar trovões em traques, Sua voz fazia a voz de São Pedro parecer um cantor de churrascaria.

- Bom dia, Deus. Eu sou Da. Adélia, recém chegada de Ibirapurama.

- Sim, eu sei. Ou a senhora já se esqueceu que eu sou onisciente?

- Não, de forma alguma, mil desculpas. Então o Senhor já deve saber o total, não? Em todo caso, corrigido vai dar algo em torno de R$ 27.852.650,00. Arredondando para menos.

- Como???

- Os empréstimos, oras! Durante quase setenta anos eu fui uma alma caridosa e sempre ouvi que o Senhor iria pagar. Acho que já posso enfim acertar e quitar esse débito.

- Mas, mas, mas... Veja... É uma figura de linguagem!

- Figura de linguagem uma ova! O dinheiro que eu emprestei não foi figura de linguagem. Ou o Senhor acha que eu não gostaria de ter ido para a capital? Ou então para a praia? Ou ainda para o estrangeiro? Mas não, confiando em Sua palavra eu emprestei de muito bom grado minhas economias, acreditando em um fundo de investimento em longuíssimo prazo.

- Mas a senhora tem que entender, aqui não existe dinheiro.

- Eu não acho que eu tenha que entender nada. Se for assim, nos vemos nos tribunais.

Foi assim que o Reino dos Céus passou por sua grande revolução. Advogados entediados se esmurraram tentando pegar a causa para ser defendida, juizes fizeram fila para tentar julgar o caso e uma rede de TV foi montada unicamente para transmitir o julgamento do século, o maior julgamento de todos os tempos. Da. Adélia acusou formalmente Deus de dar um tremendo calote. Foi uma vergonha... Artigo 171.

Para manter as aparências e não perder clientela, um arranjo nos bastidores foi arrumado e Da. Adélia levou uma bolada de quase o dobro do que tinha sido cobrado originalmente. O problema foi que esse caso abriu precedentes e em pouco tempo o Céu era um lugar inflacionado, em que o dinheiro não tinha praticamente nenhum valor. Políticas econômicas tiveram de ser adotadas, como congelamento de preços e racionamento de alguns produtos.

Também é desta época que o estelionato se transformou no oitavo pecado capital e, sem que ninguém se desse conta, o décimo primeiro mandamento apareceu em todos os livros sagrados.

“Não darás calote no próximo”.


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