![]() |
|
![]() |
ProdígioTerça, 5 de Setembro de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Aloísio não era um menino qualquer. Quando infante, com seus tenros oito aninhos, foi solicitado a fazer uma redação. Todos os alunos começaram imediatamente a soltar o verbo e a falar sobre a boneca, o cachorro, o irmão pentelho e o pai super-herói, enquanto Aloísio olhava emburrado para a professora, de braços cruzados. A simpática e caridosa professora Sueli notou e veio com ar de sabida: - daCidade, você está com dificuldade para escrever? Precisa de ajuda? Aloísio atravessou: - Oras, como você espera que eu escreva, assim, aleatoriamente, mais que à toa? Tenho muito o que fazer. Faça-me o favor de sugerir um tema ou eu vou voltar a estudar chinês com meu Teach Yourself. A professora indecidiu se estapeava o rebento ou se lhe dava uma promoção. Optou pela segunda e Aloísio pulou de ano, afinal ela também colheria um par de louros. Era o prelúdio de um prodígio. Após uma carreira brilhante, daCidade já alcançava fama internacional e era muito requisitado por editoras do mundo todo. No apogeu de sua carreira contava com cadeira vitalícia na Academia Brasileira de Letras, chave da cidade de Paris, Berlim, Viena, Genebra e outras vilas igualmente chatas. Ganhou sem esforços os Prêmios Jabuti, Nobel, Bacuri, Tucupi, ZeitGeistWurst, entre tantos outros celebrados e cobiçados mundialmente. Mas seu sonho... Ah, seu mais sincero sonho sempre havia sido um só: tornar-se colaborador de um periódico internético com seletos colaboradores da mais alta estirpe, singelamente denominado por seus humildes editores, de Morfina. "Pequenas doses para dores diárias: genial!", pensava diariamente diante do espelho. Aquele site laranjamecânica com uma coleção inadmissível de atrocidades à língua portuguesa era perfeito, era tudo, era o Aleph tupiniquim para internautas drogaditos. Nada mais contemporâneo, nada menos revolucionário! O notável escritor mandou e mandou seus trabalhos, caprichou no verbo, xavecou a editora, mas a seleção não era fácil. Afinal, não bastava saber escrever, ser criativo, talentoso, ter prêmio Nobel e falar fluentemente sete línguas mortas e mais o Esperanto, que nunca nasceu. Havia de se ter um bom currículo: ter ao menos 12.000 horas de boteco, vomitado dogão com purê no almoço de família da sogra, dormido na sarjeta, trepado com a Dercy Gonçalves e outras mazelas mais aquém de seu perfil cotidiano. Mas Aloísio era determinado e foi derrubando uma por uma cada das barreiras impostas por este difícil processo seletivo, treinou o linguajar tosco e sacana dos editores e colunistas e, por fim, conseguiu ser aceito – coincidentemente na mesma época que os editores todos saíram de férias no Taiti. Ansioso, buscou seu primeiro e-mail oficial com o tema da semana, esperando encontrar algo genial, brilhante como de costume, inspirador, poético, contundente, nababesco! Foi quando abriu a caixa postal e leu a mensagem do editor: "O tema da semana é Tema". daCidade não resistiu. Veio-lhe uma síncope fulminante, seu cérebro paralisou, a professora Sueli pulou à memória e, não tendo mais como pular de ano, pulou da sacada do 3º. andar. Apesar de ser um dos mais talentosos escritores que nossa civilização já leu, Aloísio daCidade era de uma incompetência só para se matar. Ficou tetraplégico e hoje escreve com um sofisticado sistema de lápis na boca teclando no computador, por isso o máximo que consegue escrever é um texto a cada 15 dias.
O Aloísio que não é do campo é o
Aloísio da Cidade | 6 leitores já mijaram neste póst
|