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Pretty Surfista

Segunda, 13 de Novembro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Foi o maior bafafá na família quando o Cláudio resolveu casar. Ele sempre foi meio na dele, quietão, tímido, fechado. E nunca fez um grande sucesso com as mulheres. Quando colocaram os olhos na Bruna, a mulher dele o bafafá mudou de cor. Daquela brincadeira gostosa com a cara dele, que apareceu com uma noiva de repente, a coisa engrossou muito. Passou para um tal de “não pode casar com uma mulher vulgar dessas”. E ela era vulgar mesmo. Uma mulher simples, de origem humilde, com roupas muito pequenas e uma cara meio cansada das batalhas do dia a dia. A velha guarda da família ficou escandalizada.

Não era à toa: Cláudio, o Claudinho tinha realmente encontrado a moça num puteiro. A boca era tão suja que a mulher vulgar que brotou de lá de dentro parecia uma princesa flutuando pelo salão. E não era aquela beleza toda, mas para o Cláudio, travado e não muito esperto, cabia adequadamente.

Ele conta que foi como mágica, que ela sabia que estava ali para ganhar dinheiro, mas quando eles se viram, tudo mudou. Se você deixar, o Claudinho vai falar de coral de anjos, de tempo parado, de coração pulsando forte. É provável que seja tudo mentira, mas de qualquer forma, ele saiu de mão dada com a moça daquele puteiro e, cavalheiro, levou ela para casa dela. E não pagou um centavo.

É uma história tipo Uma Linda Mulher que só mesmo uma avó acreditaria. Mas a história foi acontecendo e acontecendo e mais um casal de classe média baixa viveu sua vida normalmente, com churrasco na laje, futebol na TV aos domingos, três filhos lindos, cheque especial, muita dívida e sofrimento para comprar um carrinho, férias em Caraguatatuba e alguns bons amigos.

Como os homens não podem deixar de ser homens e sempre conseguem estragar as coisas boas que constroem, Claudinho já quarentão se engraçou com uma qualquer e colocou tudo a perder. A história correu e até a Bruna ficou sabendo. Claudinho chegou um casa um dia e ela já estava de malas prontas, em pé na sala com uma dignidade estampada na pose altiva que só mesmo uma profissional do sexo sabe fingir. É a dignidade calma que só mesmo o completo e total desespero pode criar.

A sala estava limpa, a janta servida, as crianças na casa da mãe, as malas organizadas por ordem de tamanho, Bruna estava impecavelmente vestida, maquiada e perfumada e trazia na mão um papel. Era a conta.

- Aqui tem todos os dias marcados que transamos desde o dia em que você me pegou lá na boate. Como você é um cliente regular não vou cobrar os juros.

Aí, o bafafá na família foi maior ainda.


coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Um comentário por misericórida!