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Pensamentos sob o capacete

Segunda, 13 de Março de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

O pior era nem mais se lembrar pelo que lutava. Na guerra, com o tempo, tudo parece se perder. O medo, a dignidade, a esperança e, por fim, o motivo. Sim, contrariando o ditado, a esperança às vezes não é a última a cair.

E olha que ele não era um daqueles fracos, que não se importava com seu país. Não, ele definitivamente não. Desde pequeno, sempre foi um patriota, um exemplo, uma fortaleza. Na rua, acostumou-se a brigar com idiotas, que insistiam em falar sobre o que não sabiam. Paz?! Que paz, cara? A luta, o combate estão na essência humana, para usar uma filosofia barata. Porque se for para usar uma filosofia, melhor que seja barata, né!?

Mesmo na sua casa, viu exemplos de desvio e fraqueza. A irmã, por exemplo, também se auto-intitulava pacifista. Culpa do pai, que não a colocou na linha, claro. Se fosse ele no comando, com certeza seria diferente. Não daria chance para este tipo de baboseira.

E só por recordar estes detalhes, já esboçou um sorriso. Claro, sorriso era modo de dizer, pois, na verdade, apenas mudou algumas expressões do rosto. Rosto transformado em máscara há anos. Também já havia esquecido há bastante tempo quais os caminhos para se chegar a um sorriso. Mas por notar que ainda lhe restavam algumas memórias, ao seu modo, sorriu.

Memórias eram valiosas ali. Aquelas chegavam desbotadas e secas, mas, eram memórias, sem dúvida.

Porém a irmã, os idiotas na rua, a paz, tudo aquilo ocorreu muito antes. Antes de perder a noção de quantos meses ou anos já estava ali, naquele território hostil, cercado por aquele povo bárbaro que lhe lançava olhares amaldiçoados a cada passo que dava, falando em sua estranha língua de animais. Ah, já havia se cansado até de torturá-los, como no início. Não gostava mais nem de disparar no meio da multidão, já que depois teria que recolher os pedaços. Não, não queria o menor contato com aquela escória.

Lembrou-se de uma noite quando perdeu praticamente metade de seus colegas em um bote dos animais. Chegaram e atacaram invisíveis, como sempre. Assistiu um grande amigo derreter ao seu lado, sem soltar um grito sequer, como deve ser. Com ele seria assim também. Agora, relembrando aquilo, ficou na dúvida se não era ele quem havia derretido e o amigo ficado vivo ao seu lado. Poderia até ser, já que dava na mesma. Eles, os soldados, eram um só.

E derretido ele já estava também. Por dentro. Apenas esperando que os bárbaros viessem terminar o serviço. Às vezes até torcia por isso. Afinal, uma vez que nem se lembrava mais pelo que lutava, não faria diferença alguma morrer ali ou em sua terra, ao lado dos seus. Diferença alguma faria.


escrevi e saí correndo: Fábio Inverídico | Um comentário