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Para ser alguémQuarta, 19 de Outubro de 2005* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Meu vício era manter-me sob a névoa, irreconhecível, camuflada.Meu vício era manter meus lábios ocupados, há quem diga - Freud explica - que não saí da minha fase oral, ou que ela não foi bem-resolvida durante minha infância. Meu vício era em ser viciada. Precisar de uma mania para ser alguém. De um acessório para virar gente. Foi assim com os cigarros. Comecei por achar bonito ver alguém através da nuvem de fumaça. Humphrey Bogart foi o primeiro que me encantou, com seu jeito meio gângster, meio rebelde-sem-causa-amadurecido de fumar, de semicerrar os olhos. Talvez para que não ardessem em contato com a nuvem cinza. Talvez apenas para ser imortalizado numa imagem de status blasé. Mas a ansiedade com que eu tragava um a um não tinha a mesma elegância dos filmes. E ver o mundo através da fumaça era diferente de ser vista desta forma. Era feio tossir tanto e ter os cabelos fedidos. Resolvi então mudar de nuvens e escolhi aquela quente e perfumada do café. Eu nunca tive um bom paladar para café. Tomava para acompanhar o cigarro, nada mais. Por esta razão, achei que o complemento lhe seria um bom substituto e resolvi me viciar. E funcionou. Hoje, com meses de treinos diários - muitos por dia, dezenas - sei distingüir um café feito com água da torneira de um feito com água de filtro de barro. Não que me sirva para algum bem, mas me sinto importante quando faço uma observação ao final de um almoço. Sem o cigarro, todos os gostos ficaram muito mais apurados, e sinto um prazer maior ainda em degustar qualquer porcaria. Mas nada é perfeito por tanto tempo. Tive uma crise de gastrite que se desenvolveu e virou uma úlcera. Meus dentes amarelaram de maneira irreversível, e eu tenho crises de abstinência avassaladoras, tanto do cigarro como do café. Sem contar a tosse que nunca melhorou. Hoje, para manter-me sob a fumaça, faço sessões de inalação e encho o aparelho de eucalipto, para deixar o cheirinho mais agradável. E chupo uma chupeta para manter minha boca ocupada. Com o bico molhado, alternadamente, na pimenta e no leite condensado. A combinação de tudo isso me causa alucinações, e só agora me sinto alguém na vida.
devaneio de:
Sil Curiati | Assume que você babou, vai
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