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Pão, pão, queijo, queijo
Pão, pão, queijo, queijo
Segunda, 30 de Janeiro de 2006
* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais
– Como assim pegou uma doença venérea do padeiro? Ela é uma freira, Deus do céu! – gritava a madre.– E quando aquele homem horrível entrou aqui!?
– Na verdade, não entrou, madre...
– Como assim, então ela saiu? Mas como pode, nós sempre a trancamos. Eu mesmo verifico todas as noites – continuava a mulher – Me explica, como é possível uma porra dessas?!
– O pão, madre, foi o pão – tentava explicar a auxiliar.
O diálogo prosseguia, mas acho melhor continuarmos esta história por outro caminho, oquei!?
Jacomo era um padeiro. Um reles padeiro, mas que escondia um ou dois vícios. Porém, posso lhes garantir que comer freiras não estava entre estes pecados. Não que ele não quisesse comê-las, que fique claro, mas a verdade é que não tinha nenhuma queda em especial pelas religiosas. O único apelo das freiras para Jacomo era a semelhança destas com os pingüins. Mas o desejo do padeiro era comer a ave mesmo.
Pois é, Jacomo era um homem com um fraco pela luxúria. Vivia de A a Z, o que o sexo e todas as suas variantes significavam. Zoofilia, pansexualismo, sexo com hermafroditas estavam entre as preferências do padeiro, um homem que entregava-se à bacanal diariamente e emendava cada noite de orgia com a tarefa árdua das manhãs na padaria.
E foi numa destas infindáveis festas libertinas que Jacomo conheceu o seu amor. Álama, uma mulher de 1m26 de altura e que mesmo mal chegando ao umbigo do padeiro atingiu-lhe o coração. Fato este que Jacomo nunca conseguiu explicar a si próprio e nem tão pouco defender-se.
"Não sei, quando a vi sendo servida em uma bandeja prateada com aquela maça na boca, as orelhinhas e o rabo em parafuso postiços, não sei...", rememorava.
Ocorre que ambos casaram e Jacomo continuou a freqüentar as suas baladinhas after midnight. A felicidade, porém, durou pouco para os dois, já que Álama ficou putinha da vida, quando o marido começou a lhe proibir de ir às festinhas. E não é nem que ela gostava de curtir aquela pouca vergonha, mas sempre conseguia uns bons trocadinhos e podia comprar seu fumo de corda e os vestidinhos de chita de que tanto gostava.
Entretanto, Jacomo foi categórico. E assim nossa história chega ao fim.
Está aberta, a partir de agora, a sessão de perguntas e para adiantar o programa, que já está bem atrasado, também será servido o coffee break. Os senhores podem se servir e voltar aos lugares para as questões.
– O senhor ali.
– ******* – falando bem baixinho, o senhor.
– No microfone, por favor.
– Ah, oquei. O que ocorreu com Jacomo e Álama? – o senhor, de novo.
– Bem, eles continuaram juntos por algum tempo e Jacomo pode enfim chegar bem perto de sua fantasia de comer um pingüim, graças as fantasias que comprou para sua mulher. Porém, Álama não suportou ficar financeiramente dependente do marido e se mandou para um lugar desconhecido.
– A senhora ali.
– Obrigado. Como a auxiliar poderia afirmar com certeza que a freira enclausurada do começo da história pegou doença venérea de Jacomo? – arriscou a senhora.
– Foi feito um exame médico detalhado que não deixava dúvidas quanto a isso.
– Mas como isso ocorreu, se é sabido que eles nunca se encostaram? – insistiu a senhora.
– Como a auxiliar disse, foi pelo pão. Jacomo não era muito asseado e a freira enclausurada era muito solitária, assim ela deixava os baguetes que lhe eram servidos endurecerem e, com o perdão da ironia, utilizou o corpo de cristo de uma forma pouco convencional.
– Mas isto é uma heresia! – gritou um lá do fundo.
– Sim, foi o que disseram na época. E ela, além de doente, se sujeitou a um longo julgamento da igreja. A mocinha ali, pode perguntar...
– O que são estas coisinhas pretas aqui, debaixo dos pães, nas cascas? – perguntou a mocinha.
– É, o meu também tem – outro fez coro.
– No meu também – mais outro.
– É que o Jacomo vem patrocinando nosso evento e ele tem oxiurose. Fica fácil notar por este slide em que podemos vê-lo fazendo o pão com suas longas unhas com as coisinhas pretas debaixo...
Fim da palestra
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