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Palermo, às cincoQuinta, 13 de Abril de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Daquela janela via-se amplamente, sobre o muro, o lote baldio que nos ladeava naquele bairro de Palermo. Era lote mais comprido que largo, fundeado por árvores mais espessas e maiores, que iam afinando e ralhando até a metade do terreno, dali até próximo à rua havia apenas um gramado vasto e vistoso.Alfrânia nos preparava chá, por volta das cinco horas, que nos era servido na mesa da sala. De onde sentávamos tínhamos vista para aquela janela e, através dela, podíamos ver os coelhos. Malhados, lebrados, alvi-negros, completamente alvos, de todos os tipos. Vários. Grilando o vasto gramado, já sombreado pelas copas das árvores do fundo do lote. Não era comum existir coelhos soltos - ou qualquer outro animal, que não fossem cachorros sarnentos e sem-lar - naquele miserável bairro de Palermo. Se aqueles coitados percebessem a existência destes amáveis seres, certamente haveriam de virar cozido, e seriam servidos com o acompanhamento de batatas ou alcachofras. Particularmente prefiro as alcachofras, mas esta peculiaridade culinária não vem ao caso. Como podiam aqueles coelhos estar ali, em pleno Palermo, a mercê de todas àquelas gentes, todos miseráveis e famintos? Esta foi a questão que pairou sobre nossas vidas, norteando nossas conversas, todas as tardes, depois das cinco horas. Mergulhávamos, então, naquele chá, feito pontualmente por Alfrânia, alimentando-nos por biscoitos e pela busca de uma resposta ou explicação aquilo tudo. Os meses passavam, os anos passaram, e os coelhos, lá persistiam. Pastando o verde gramado em dias quentes ou de frio. Parecia, até, que aquele lote pertencia a uma fazenda ou, reserva ou coisa que o valha, mas não, jamais, ao sórdido e miserável bairro de Palermo. Nós sofismávamos hipóteses e explicações, enquanto Alfrânia nos servia xícara atrás da outra. Chegou a manhã de quinze de agosto e, tão surpreendente quanto a forma que surgiram, os coelhos não aparecerem para pastar. Nem as cinco, nem as seis, nem nas horas e dias conseguintes. Morreram todos? Foram descobertos pelos miseráveis moradores de Palermo, que logo degustaram cuidadosamente suas carnes? Contraíram doença ou virose incurável e fulminante? Não sabemos. Os dias, meses e anos foram passando, e não tardou para que nos ocupássemos de outras irrelevâncias. Lembro-me de um dos mais alvos dos coelhos. Focinho rosado como uma cereja. Olhava atentamente para a nossa janela, com a orelha em riste, como se estivesse a nos observar, igualmente sofismando, em seu roer campesino, o que estaríamos fazendo olhando tanto para ele. Também lembro que naquele mesmo quinze de agosto Alfrânia adoeceu. Morreu dias depois. Doroti chorou muito. E nunca mais nos foi servido o chá das cinco.
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