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País tropical. Aí, que nojo...

Segunda, 3 de Julho de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

O inverno, ah, o inverno. Momento romântico para os casais e nem tanto para os mendigos. 

É a estação em que o Brasil mais inveja o primeiro mundo. Quer dizer, ao menos aquela parte do Brasil que gostaria de ser Europa ou Estados Unidos.

– Ah, a neve é tão bonita, né?! – devem pensar. – E no inverno as pessoas se vestem tão bem. É tudo tão mais sofisticado.

Às vezes, gostaria de entender o pensamento tacanha de uma cambada que vejo por aí:

– Aqui no Brasil, não, mesmo no inverno o povo sua. Aí, que nojo... E as roupas de cá, então?! Cada sem-vergonhice. Lá na Europa é bem diferente, ô se é. Tenho uma tia que foi para lá e disse que...blá blá blá...

E por aí vai. Alguns amigos e eu apelidamos essa peculiar forma de entender o mundo como “o Brasil que o Brasil não conhece”.

Trata-se de um estado de espírito (de porco), que faz com que a pessoa vomite tratados antropológicos baseados no mais autêntico e ancestral senso comum. Deste modo, um inocente inverno serve para avaliar o Brasil perante o mundo, o mundo perante o Brasil. Etc perante tal, tal perante etc. O importante é mostrar como pensa o “cidadão de bem”.

Mais uma simulação: – Ah o inverno na Europa, lá sim é que existe cultura. Gente bonita. Alías, como em Campos do Jordão. Lugar de gente bo-ni-ta.
Há há há, pois então, poucas coisas me divertem mais do que “o Brasil que o Brasil não conhece”, expondo seus valores. Chego a colecionar e trocar tais relatos com outras pessoas como se fossem figurinhas...

– Coisa de quem não tem o que fazer, né, meu filho?! Porque, para quem tem muito trabalho não sobra tempo para ficar caçoando dos outros – explicaria um autêntico cidadão de bem.

Ah, o inverno, como é bonito o inverno. Toda aquela gente bonita reunida com visual sofisticado e queimando a língua com fondue. Magnífico.


escrevi e saí correndo: Fábio Inverídico | Dois comentários