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Ovos de PáscoaSexta, 18 de Março de 2005* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais A vida de contador não é das mais agitadas, mas a de Almir era. Ao menos quando saia do trabalho e, principalmente nas vésperas destas de festas populares que envolvem almoços, jantares e troca de presente entre amigos e parentes.Bom que só ele, Almir tinha de se desdobrar para atender os caprichos e carências das duas famílias que mantinha. Jamais se perdoaria de deixasse uma de suas mulheres desapontadas com ele. Sim, ele também se considerava dentro de uma estória de Nelson Rodrigues. Toda véspera de Natal, Páscoa, dia das crianças, ele se via às voltas para conseguir comprar os presentes para todos. Para não ser injusto ou não se perder num eventual comentário, sempre dava os presentes idênticos para ambas esposas e para os quatro filhos - dois de cada esposa, todos meninos, dois de seis, um de sete e outro de nove anos. Considerando que uma família, uma mulher, é capaz de levar qualquer vivente à loucura; duas eleva, no mínimo, à segunda potência este processo. Mas Almir sempre manteve a serenidade. Até então. Ele estava farto desta situação, destas cobranças. Queria aproveitar as duas famílias também, não só ficar dividindo tudo o que tinha, sem poder usufruir por completo de nada. Então resolveu que daria um basta naquilo tudo. Não há como ter certeza, mas o fato da Páscoa deste ano ter caído, pela primeira vez, no dia de seu aniversário, teve, de alguma forma, influência para o desencadeamento do lado mais desconhecido de Almir. Rosycler, com quem ele morava na Zona Sul, não podia acreditar que o seu “Almirzinho” tinha outra, “e ainda por cima com dois filhos”, e, depois de enxotá-lo de casa com a frigideira fervente, caiu aos prantos. Jéssica, esposa do Lago Norte, era mais calma. Escutou tudo que ele tinha para lhe falar, engoliu o choro e apenas pediu para que ele saísse e nunca mais voltasse; jurou que ele nunca mais veria os filhos outra vez e garantiu: “só não enfio esta faca no teu bucho porque é Quinta-feira Santa, seu desgraçado!”. Almir nunca tinha sido tão sincero em toda a vida, nem tão solitário. Sempre fora um ótimo marido, um companheiro decente, bom pai, homem trabalhador, honesto e até mesmo fiel - às duas esposas. Não podia entender aquela atitude delas. A verdade deveria libertá-lo e não condená-lo a viver sem elas, sem os filhos, sem ninguém para comemorar o seu aniversário. Na Sexta-feira da Paixão participou dos festejos. Viu a encenação dos últimos passos de Cristo, o beijo de Judas, o julgamento, a condenação, a Cruz, a dor, o sacrifício, a morte, a redenção, a ressurreição. Enquanto procurava o hotel que havia se hospedado, entendeu o deveria fazer. Deus queria que ele redimisse seus pecados, como Cristo havia feito pela humanidade, dois mil anos antes. Pediu ao recepcionista dois envelopes grandes, papel e uma caneta. Subiu para o 102. Pediu peixe, batatas e bastante analgésico – “vou comer no quarto, estou com uma enxaqueca daquelas”. Depois do jantar escreveu meticulosamente dois bilhetes, uma pra cada mulher, idênticos. Foi para o banheiro. Com a faca do peixe arrancou os dois testículos, enrolou em papel higiênico. Voltou para sala, pingando sangue. Colocou um bago em cada envelope. Fechou. Depositou-os sobre a mesa e depois desabou desacordado, em cima da faca, que lhe perfurou o pulmão. Era Sábado de Aleluia quando descobriram o corpo. No Domingo de Páscoa, Jéssica e Rosycler se conheceram. Estavam no IML para reconhecimento de cadáver. As duas estavam inconsoláveis, e abraçaram uma a outra, quando viram Almir azul e duro sobre a morgue. O legista entregou os envelopes - exatamente iguais - para as duas “viúvas”. Abriram de pronto. Lá estava, um pequeno bilhete, “Nunca amei nenhuma mais que outra, nem fui injusto ou parcial. Tudo o que uma teve a outra também. Não deixo meu coração, pois não ia conseguir dividir igualmente, por isso, deixo aquilo que pude dividir por igual. Feliz Páscoa!”.
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