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Ordem e Progresso? Só uma frase de efeito.

Quarta, 7 de Setembro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Patriotismo é o nome que encontraram para designar o "cuide do que é seu", ou o "ninguém tasca, eu vi primeiro".
Me lembra daqueles tratados que os espanhóis e portugueses fizeram quando chegaram em terras latinas. Tinha o Santo Ildefonso, o de Tordesilhas, e outros de nomes menos legais de decorar. Todos para proteger propriedades que não eram de nenhum deles, mas dos índios. Todos para definir em que área cada um poderia atuar e a partir de onde o outro seria persona non-grata.

O brasileiro é um povo que tem orgulho de ser brasileiro em poucas ocasiões: quando vence da Argentina em qualquer partida idiota de futebol, quando ganha a Copa do Mundo, quando um piloto de Fórmula 1 morre e o mundo se sensibiliza e quando ouve samba em terras estrangeiras. De resto, não se vê mulheres com biquinis estrelados desfilando as bundinhas morenas, camisetas com combinações de verde e amarelo circulando nas ruas, nem hinos sendo tocados por bandas de rock de Porto Alegre. E tem governantes que são de dar inveja em qualquer larápio de fama internacional.

Na época do colégio, o 7 de setembro era uma festa. Na semana da pátria, a bandeira tremulava orgulhosa e cansada no mastro que ficava ao lado das bandeiras de São Paulo e do próprio colégio. Líamos poeminhas ("Eis no mastro tremulando a bandeira do Brasil, ela é linda é a primeira, a primeira entre mil...") e cantávamos todos os hinos que já foram compostos. Bombeiros davam palestras no salão nobre, visitávamos o Exército de Barueri e usávamos fitinhas alfinetadas na lapela do agasalho.
Hoje em dia, dou graças aos céus por ver a cidade vazia e sem trânsito no feriado. E isso porque sou patriota, do tipo que não dava esmola pra mendigo americano quando morava em Miami por saber que aqui tem mais mendigos de verdade, e não fabricados por Hollywood.

Eu acho o patriotismo exacerbado - como o americano - uma hipócrita e tendenciosamente xenófoba lavagem cerebral. Sou sensível e sempre me emocionei em discursos bem feitos com trilha sonora bem cuidada, mas temos que concordar que o blablablá do American Way of Life já era. Haja visto os figurões importados que vêm passear por aqui tentando embutir em nossas mentes que nem todo americano é aquele nojo que vendem para os países de terceiro mundo. Fazem questão de mostrar que conhecem as necessidades dos demais e se preocupam com elas, como pretende fazer o cantor Moby na Venezuela.

Não existe patriotismo sem orgulho puro. E é absolutamente impossível sorrir diante de tanta barbaridade que vemos acontecer no Brasil atualmente. Dá vontade de virar avestruz e enfiar a cabeça na terra, de vergonha. Por isso tanto silêncio hoje.
Pelo estilo do nosso povo, o patriotismo brasileiro aplicado seria um dos mais divertidos e verdadeiros, mais alegres e simples. País grande, lindo, cheio de recursos, exportando talentos, sem amarras com estilo de vida, sem padrões de educação, uma terra onde se celebra a diferença e a miscigenação. Os americanos ficariam no chinelo.

Se eu fosse Deus, estaria por aí arriscando um portunhol e tentando mudar de raça. Ainda bem que Ele ainda tem fé nesta terra e segura as pontas da gente...

devaneio de: Sil Curiati | 2! E o cordão dos puxa-saco cada vez aumenta mais!