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O sétimo círculo do inferno

Domingo, 17 de Setembro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais



Se você perguntar para eles, nunca obterá uma resposta concreta. São histórias vagas, incoerentes, algumas delas bastante envoltas em fantasias tipicamente urbanas. Ninguém sabe como foi parar ali, mas todos têm orgulho em contar uma história mais sofrida que a outra, como soldados veteranos comparando cicatrizes emocionais. As histórias falam de aliciamento, sedução, carceragem, seqüestro, roubo de rins e até abdução. Como os discursos são embebidos em experiências com entorpecentes, música ruim, croquetes, coxinhas, esfihas, empanadas e lendas urbanas, pode-se ter a certeza que nenhuma delas é verdade.

O elemento principal no discurso dessas pobres almas que vagam perdidas pelo cyber-espaço é a propaganda governamental, e parecem forjadas por Fidel Castro. Essas frases feitas que eles proferem só dão mais margem a interpretação fantasiosa. Eles dizem que são felizes ali, que enchem a cara regularmente, que são cercados de pessoas bonitas e intelectualizadas, dizem que freqüentam teatros e exposições, mas é tudo mentira. Você até pode acreditar no primeiro e no segundo coitado que te contar essa história, mas quando ouve tantos perdidos repetindo as mesmas frases, começa a ter certeza que está pisando em um lugar onde a fronteira entre a realidade e o buteco perfeito é bastante cinza.

Mesmo assim, a evasão é pequena. Poucos conseguem se afastar, e os que se vão, sempre dão um jeito de voltar. Ao menos para uma visitinha. Não se sabe qual é o real propósito dessas pessoas, ou melhor dizendo, o que sobrou dessas pessoas. Seus corpos fragilizados só não estão piores que seus neurônios deteriorados.

Ocupados ao longo das horas com tarefas impossíveis, ditadas por forças maiores, eles se arrastam perdidos, dizendo coisas incongruentes e tendo idéias mirabolantes, como os bêbados e loucos das praças das cidades grandes. E como se aplicam a essas idéias, abraçando-as como se fosse uma grande tábua de salvação. Debruçados sobre conceitos mal desenvolvidos, relacionando outros trabalhos de qualidade duvidosa, provavelmente nem se preocupam mais com os resultados de seu esforço, apenas em realizar a tarefa em si. A aparente nobreza do esforço e da arte dissolve-se rapidamente quando você aprende que não há paga para todo esse trabalho.

São viciados, todos eles. A única recompensa que eles têm, é uma dose diária de Morfina.


coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 2 sublimes almas