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O Santo do Pau Oco

Segunda, 7 de Agosto de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Entre venerado e temido, o Padre Vinicius conduzia a missa com a rigidez moral impecável que lhe era esperada em sua paróquia na pequena e pacata cidade de Taubaté, no interior de São Paulo. Já no restante do tempo, era um devasso. Aliciava meninas e meninos impúberes para ajudar com os afazeres da igreja e a partir destes, é que conseguia dar vazão as suas depravações.
Muitos eram os meninos que ajoelhados penitentes, esfregavam o chão que ligava as portas maciças de madeiras ao altar. Padre Vinicius deleitava-se com a visão dos inocentes de quatro no chão, as delicadas ancas erguidas e movendo-se libidinosamente ao fervor dos movimentos. As meninas de saia, sempre limpavam os lugares altos, para que suas pernas ficassem à mostra. Mas o verdadeiro deleite do padre era na confecção do vinho sacramental, cujas uvas deveriam ser esmagadas pelos pequenos pés das meninas virgens. A luxúria que o padre sentia ao beber o vinho dos pezinhos nus das meninas só não era maior do que quando ele se oferecia para lavar-lhes.
Não raras ocasiões, o desejo do padre pronunciava-se através da batina e algumas das crianças eram compelidas a tocar-lhe. Alguns poucos enfantes efetivamente faziam algum escândalo, gerando um mal estar na cidade que era rapidamente suprimido dada a proeminência da figura religiosa.
A verdade é que muitas das crianças, já perigosamente adentrando em anos na adolescência encontravam no Padre Vinicius ou sob sua conivência, espaço para dar vazão a sua própria ebulição hormonal. Pregando os bons costumes entre a cidade, o homem mais de uma vez escondeu sob sua batina o amor proibido entre os pequenos. Era seguro dentro da paróquia para que virgindades se perdessem e formas menos convencionais do amor florescessem.
Um dia surge na entrada da cidade uma senhora. Distinta, elegante e bonita, ela atravessa a cidade a passos firmes e bate na porta da igreja, exigindo ver Padre Vinicius imediatamente. Era uma calma tarde de verão e o padre demorou a abrir as portas do prédio sagrado, sem dúvida escondendo da forasteira algo que toda a cidade já sabia mas que ninguém ousava elucidar.
Obsequioso e cordado, Padre Vinicius aprendeu da boca da mulher que tratava-se de Santa Alodia reencarnada que se apresentava ali. Viera em missão especial de Deus para limpar a pouca vergonha que o homem de batina não somente era conivente, como também tomava parte. A partir de sua maior autoridade como santa protetora contra o abuso infantil, Santa Alodia andou a passos firmes igreja adentro e exigiu ver as crianças que ali estavam.
A custa de muita lábia, elogios e explicações litúrgicas, Padre Vinicius conseguiu recolher a santa mulher para sua sala, onde serviu-lhe água, pão e o vinho sacramental, do qual muito se orgulhava. Firme e impetuosa, a mulher demorou a convencer-se a ouvir o que o padre tinha para dizer e, finalmente, sentou-se e aceitou um cálice do vinho. O padre delicado interessava-se pela atuação dos santos, queria saber de tudo, de onde vinha, se conviviam diretamente com o Senhor e qual era sua rotina. A contra-gosto, Santa Alodia lhe explicava e respondia suas perguntas, sempre exigindo ver as crianças que em algum lugar escondiam-se em pecado.
O padre que atestava e enaltecia a castidade e pureza de Santa Alodia, enfim concordou em levar a enviada de Deus para conhecer o humilde espaço de profissão da fé. Sob ameaça de uma temporada no purgatório com opção de desvio para o inferno, Padre Vinicius dizia à santa que admirava a iluminação da santa. Levemente tocada pela vaidade, ela afinal confessou-lhe que era somente a pureza que a mantinha perto de Deus e que, qualquer contato com o pecado ou suas muitas extensões a tiraria dos caminhos do Senhor.
- Neste caso, você ficará muito feliz com a comunhão sagrada que temos com Deus na confecção do nosso vinho – dizia e servia à santa taças cheias – Por aqui, por favor.
Descortinando a entrada para a cave onde as uvas aguardavam sua transformação, o padre revelou à santa uma tina de madeira cheia de uvas roxas onde duas adolescentes nuas ardentemente davam vazão à seu amor e sexualidade. Fruto da paixão precoce, o vinho esmagado sob seus corpos delgados desciam para a produção e engarrafamento enriquecidos com fluidos do amor.
A taça de Santa Alodia espatifou-se no chão enquanto a mulher agarrava a própria garganta gritando histericamente sua desgraça. Desgarrada do rebanho de Deus, ela correu em direção à saída da cidade e nunca mais foi vista.
As duas ninfas assustadas, perguntaram ao padre quem era aquela mulher.
- Ninguém, minhas crianças. Ninguém.
E pôs-se a tirar a roupa.



coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 2 sublimes almas