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O Projeto MandriãoSegunda, 28 de Agosto de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Quinto dia: Conversa gravada entre J. e sua mulher: – Amor, você vai fazer compras hoje? O amaciante já acabou e tive que lavar suas roupas sem ele. O sabão em pó também já está acabando... – Hoje, não. Talvez na sexta ou no final de semana. Nono dia: Imagens e diálogo filmados no trabalho de J.. Conversa entre ele e um assistente. – Olá, doutor, resolveu deixar a barba? – Mais ou menos, na verdade trata-se de outra coisa. – Humm, oquei, posso abrir aquela janela? Acho que o laboratório está precisando de um pouco de ar. – Sem problema desde que seja você a abri-la, não eu. Décimo sétimo dia: Fragmento de papel encontrado no lixo da casa de J., provavelmente um pedaço de um bilhete de sua mulher a ele. Não agüento mais tudo isso. Você deve ter fic... (pedaço rasgado) (pedaço faltando) na casa da minha irmã. E as crianças est... (pedaço faltando) Nunca imaginei que acab... (pedaço faltando) Vigésimo terceiro dia: Manchete de jornal local. PRÊMIO NOBEL DESAPARECE MISTERIOSAMENTE Vigésimo nono dia: Testemunho de um colega de trabalho. Há dois dias, saímos de um restaurante. Estávamos apenas minha mulher e eu. A noite estava agradável e resolvemos voltar para casa à pé. Ao passarmos por perto de um beco, olhei para o lado e vi que havia um homem sentado ao chão e iluminado por um poste de luz. Apesar da barba hirsuta e de estar envolto em trapos rotos, reconheci o olhar do doutor J. Salles. Porém mais parecia um mendigo. Como é possível? Não sei. Quadragésimo primeiro dia: Imagens e conversa captadas por câmera de vigilância pública. (mulher) – Dê uma moeda para aquele pobre homem, amor. (homem) – Certo, às vezes sou contra, mas esse coitado deve estar faminto. (homem põe a mão no bolso e abaixa-se) – Tome, coma alguma coisa. (suposto J. Salles, murmura algo em resposta, mas não dá para ouvi-lo) (mulher) – O que ele disse? (homem) – Ele disse que não é mendigo, que é um cientista trabalhando. (mulher) – Pobre homem louco. Centésimo trigésimo segundo dia: Relato de um caçador. Estava caçando com um amigo ontem, quando meu cão farejou algo em meio a floresta mais densa. A princípio pensei se tratar de um animal pequeno, como um coelho ou uma paca. O cão avançou na mata algumas centenas de metros adiante e começou a lutar com o que parecia ser uma criatura maior. Pensei que poderia ser um urso ou um lobo, mas daí lembrei que não há nenhum deles em nosso país. Corremos, mas quando chegamos a luta já havia terminado. Meu cão estava morto, com mordidas na garganta. Achamos pegadas por perto, mas pareciam ser humanas. Mas não havia nenhum sinal de vida por ali. Primeiro ano. Trechos selecionados de jornais da região. Do obituário: Os amigos e familiares convidam, com profundo pesar, para a missa de corpo ausente pela alma de Jonas Albuquerque Salles, amigo, irmão, pai, marido e cientista. ...e das páginas policiais. A polícia continua o cerco à criatura que ataca na região. Já são 15 os animais mortos pelo misterioso predador. A população acredita que se trata de um lobisomem ou chupa-capras, mas os especialistas desmentem tais crendices, embora não consigam explicar a autoria dos ataques.
escrevi e saí correndo:
Fábio Inverídico | Um comentário
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