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O primeiro clichê a gente nunca esquece

Segunda, 16 de Outubro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Não dá nem para começar a explicar os absurdos que a minha memória faz. A lógica é completamente tortuosa e eu ainda não consegui chegar a nenhuma teoria possível. Ela é seletiva, sem dúvida, mas não sei o porque. Nem como. Algumas coisas eu bem que gostaria de lembrar. Outras eu gostaria muito de me esquecer e simplesmente não consigo. Meu primeiro beijo foi um desastre. E a menina era horrenda. Por que é que eu me lembro dela, da roupa que maldita estava usando, da cara, do cheiro, do cabelo, dos olhos, dos dentes, do jeito e até do dia da semana, mas simplesmente não consigo me lembrar do por quê de ter tascado a língua garganta abaixo daquela tremenda mocréia?

Em compensação, a primeira transa foi um espetáculo. Não houve fogos de artifício nem champagne, mas houve cerveja, fogueira, calor, tesão, quadris insinuantes, beijos insanos, cabelos revoltos, roupas voando, bocas molhadas, mordidas, unhas nas costas, orgasmos incríveis e dormir de conchinha. Mas mesmo assim, essa memória maravilhosa não apagou aquela do primeiro beijo na baranga. Eu bem que gostaria de colar uma memória em cima da outra e pronto, preenchia quatro anos de vida, que foi a distância entre o primeiro beijo e a primeira transa.

Não seria verdade, vá lá, mas afinal para que eu preciso ficar lembrando dos primeiros desastres da minha vida? Quero me lembrar das coisas boas, como o meu primeiro sutiã, uma memória delicada e perfumada que eu não faço nem a menor idéia se estava preso ao redor da minha primeira transa. Que pena. Gostaria muito de ter desvendado esse perigoso enigma que é o primeiro fecho de sutiã junto com aquela morena toda branquinha de olhos desenhados em arabescos que me ensinou o que é bom na vida. Mas não sei se foi com ela. Juro que não me lembro. Sei que hoje eles não apresentam mais mistério nenhum. Assopro as pontas dos dedos e num estalo, lá se vão eles, um para cada lado. Mas será que foi a moça da primeira transa que me ensinou? Como vou saber?

Vai ver, do lado de lá do sutiã a coisa toda é muito mais significativa. Vai ver o slogan da Valisére tem seu fundo de razão. Mas eu duvido que o publicitário que criou a frase lembre-se do seu primeiro sutiã. Talvez ele se lembre mais do seu primeiro slogan. Com muito carinho, como quem lembra do seu primeiro beijo. Ou da primeira transa. Ou da primeira vez que ouvir “eu te amo”. A primeira vez que eu ouvi isso não foi na minha primeira transa. Mas dava vontade de berrar isso a plenos pulmões, verdade ou não. O meu primeiro “eu te amo” veio bem mais tarde, por conta dessas coisas da vida. Lembro-me da moça que me disse e para quem eu respondi o mesmo. Mas também não me lembro da ocasião. Gostaria de lembrar. Mas isso talvez significasse lembrar também do meu primeiro grande fora. Eu sei que foi um grande desastre para mim, mas eu consegui sublimar esse 11 de setembro da minha vida. Sem terapia nem nada.

Aí houve outras primeiras vezes. O primeiro carro, o primeiro emprego, o primeiro salário, a primeira conta no banco, a primeira batida do carro, a primeira dívida e o primeiro mergulho de cabeça dentro do primeiro cheque especial. Alguns desses eu me lembro, outros não. Chegou uma hora que o cheque especial e eu ficamos muito íntimos e essa formalidade de primeira vez evaporou rapidinho. Essa experiência comprovou por vez que não fica na memória só as boas primeiras vezes. Se guardássemos as coisas boas, eu teria guardado o meu primeiro sutiã. O que eu tenho guardado aqui comigo, é o último.

Pelo menos aprendi a não temer as próximas primeiras vezes. Segunda feira, por exemplo, começa no trabalho a minha primeira estagiária. Nunca tive alguém para comandar, que eu me lembre, mas posso estar enganado. Pode ser que eu me enrole todo. Mas eu acredito que tudo vai ficar bem. Mesmo que seja um grande fracasso.

Pior do que meu primeiro beijo não pode ser. Se for, vou querer esquecer.



coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Um comentário por misericórida!