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O pecado terminalQuarta, 23 de Novembro de 2005* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Marquinhos nascera rico, em berço de ouro. Mimado, era o cara mais insuportável da quebrada. Vivia esbanjando suas pulseiras de diamantes, roupas novas e carros importados. Seu maior prazer era desfilar os mimos na frente do Déberson, o garoto pobre da rua.Arrogante e altivo, morreu de inveja quando o pequeno Déberson recebeu seu primeiro salário como engraxate e apareceu na rua com um belo sanduíche de presunto. Tomado pela raiva, decidiu fundar a Escolinha dos Glutões, uma sociedade na qual ele e seus amigos do Clube do Pônei se gabavam de comer tudo o que aparecesse na frente até não agüentar mais. Os encontros eram realizados todos os dias em frente ao barraco da pobre família de Déberson, que jamais fora admitido na escolinha. Nem mesmo quando ele perdeu o emprego e teve que se virar como menino carvoeiro. Mais tarde, já adulto, Marquinhos comia todas as garotinhas interesseiras da rua. Gostava de pagar prostitutas para os amigos. Duas, três de uma vez. Menos para o Déberson, que sustentava a família lustrando os sapatos dos putanheiros. O tempo passou, Marquinhos e Déberson ficaram velhos até que, finalmente, morreram. Chegaram juntos ao firmamento. São Pedro os recebeu e, de cara, deu um carro novo e a chave de uma bela mansão para Déberson. Depois, o despachou para o céu. Cheio de si, Marquinhos ficou esperando seus presentes. Certamente seriam bem maiores do que os do velho rival, que não passara na vida de um pescador pobretão. No entanto, São Pedro o entregou o mapa do inferno. E não, não estou falando da mulher do Déberson, a Neusolina. Nesse instante, Marquinhos percebeu o quanto foi cruel na vida, se arrependeu de todos os pecados e, de joelhos, pediu clemência a São Pedro. Bonachão como sempre, Pedrão deixou quieto e deu ao rico rapaz a chave de uma casa melhor no céu. Mas disse que ele teria de subir a pé, pois não tinha reservado outro carro na locadora. Marquinhos então se levantou. Encarou bem o santo e se colocou a pensar. Depois, deu um tapinha nas costas do porteiro do céu, olhou para baixo e desceu a escadaria. Ficou com preguiça.
Tá lá um corpo estendido no chão por
Dr. Peçanha | balançaram as redes
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