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O pão nosso de cada dia
O pão nosso de cada dia
Quarta, 28 de Junho de 2006
* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais
Todas as manhãs ele levanta com um humor pior que seu hálito. Toma um copo d'água para enganar, e sai da cama puxando o cobertor. Faça chuva ou faça sol, calor ou frio, ele caminha pela casa enrolado naquele pedaço de pano que se arrasta pelo chão, como seus pés descalços. Todas as manhãs, religiosamente. O café é da noite anterior. Um resto amanhecido e sem graça do que o manteve desperto por umas horas a mais. Ele enche a caneca de açúcar, quase metade, e toma aquele purgante enquanto pensa no martírio que será seu dia. Joga água no corpo, aquilo não é banho. Usa o sabonete nas partes íntimas, para justificar tê-lo comprado. É um homem insatisfeito com a vida, que não vê mais razão para despertar todas as manhãs e seguir sua ladainha. Não acredita em nada nem ninguém. Pega o ônibus e vai para a firma. Uma condução basta, não pega nem tanto trânsito, é contra-fluxo. Chega pontualmente às 8h30, todos os dias. Não gosta de jornais ou rádios porque não acredita que tomará conhecimento de alguma grande mudança no mundo. É um homem sem fé. Não pede nada a ninguém, nem a entidade alguma. E religiosamente, ele se queixa de tudo o que tem, o que não tem, o que viria a ter, o que jamais terá. Internamente, em seu santuário falido. Todo santo dia.
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