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O Muro Sempre Cai

Terça, 21 de Fevereiro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

O oitavo aniversário de André foi um choque para toda a família. Quer dizer, na época não foi, era tudo uma grande brincadeira, coisa de criança, mas o tempo provaria o contrário. Talvez nada disso teria acontecido se aquele tio bigodudo metido a engraçado – todo mundo tem um – não resolvesse fazer manha com o sobrinho, apertando sua bochecha ao perguntar o que o pimpolho ia ser quando crescesse. A resposta foi direta, cortante. Alguém na frente do garoto nesse momento poderia sentir na pele a força das palavras:

- Vou ser comunista!

O tio, a mãe, o pai, o avô, uns primos de terceiro grau e quem mais estivesse por perto o suficiente para ouvir a resposta fizeram com que o ar ganhasse uma certa viscosidade, criaram um potencial elétrico que durou uma fração de segundo, enquanto todos fitavam atentamente aquele menino franzino, com cabelos encaracolados que não ficariam muito tempo quietos depois de penteados. Foi o tio do bigode que quebrou o gelo com uma gargalhada meio forçada, meio engasgada. Mas a má impressão ficou no ar. Talvez por conta da família ser uma das maiores proprietárias de terras na região noroeste do estado, talvez por realmente acreditarem que as geladeiras dos comunas teriam criancinhas dentro de tupperwares.

O tempo passou e André realmente virou um comunista. Apesar de todos os esforço da família para desencantá-lo daquilo que praticamente o mundo todo já tinha esquecido. Mas todas tentativas foram vãs. Os pais preferiam achar que era birra, coisa de adolescente, só para ser do contra e jogar no chão toda uma tradição familiar. Mas o fato é que André realmente acreditava no uso comum dos bens materiais.

Não ia tardar para que ele também perdesse o afã pelo comunismo. E foi seu melhor amigo, o Pedrão, que mostrou para ele como a partilha igualitária dos bens e o fim da propriedade privada podem ser terríveis. Ainda mais se o bem compartilhado for sua namorada, com a qual fazia planos, engendrava sonhos, partilhava conquistas.

Foi em um trágico sábado de carnaval que André rasgou sua bandeira do martelo e da foice, atirou suas boinas no lixo e trocou o curso de ciências sociais pelo de administração, pensando em como dar continuidade aos bons anos de safras lucrativas e milhares de cabeças de gado indo para o abate nas fazendas de sua família. A Perestroika da vida de André começou, ironicamente, pelos atos de Marina Shobukova, uma neta de imigrantes russos.


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