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O mesmo

Sexta, 13 de Janeiro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Você não é mais o mesmo! Ouviu isso do segurança que vigiava a porta do bar, quando estava indo embora, lá pelas duas da manhã. Aquelas palavras ficaram no seu pensamento. Martelaram. Ao chegar na garagem de casa, percebeu que no percurso – da Vila Madalena até a Aclimação – sequer ligou o rádio do carro. Estava transtornado. Só conseguia pensar que não era mais o mesmo, mas custava a admitir. Talvez não desse tanta importância ao que o segurança havia dito se não tivesse ouvido esse mesmo comentário a noite inteira...

Às dez da noite tinha encontrado os amigos na frente do bar. Cada um havia tomado um rumo na vida e fazia algum tempo que não os via. Lembrou da época em que quase todos os dias paravam em algum lugar para tomar cerveja e conversar. Planejavam festas para o fim de semana. Falavam sobre a importância da liberdade de imprensa. Comentavam o corpo das garotas da faculdade. Previam como seriam no futuro e alimentavam expectativa de quanto iriam ganhar. Tentavam até adivinhar onde cada um estaria trabalhando depois de uns anos. Certo dia, já meio emocionados com a ajuda do álcool, chegaram a falar em casamento e filhos.

Atualmente, nas poucas vezes que conseguiam se reunir em um boteco, o assunto favorito era os bons tempos da universidade. Nem tanto pelo curso de jornalismo, que deixou a desejar, mas pelas amizades, o convívio, as brincadeiras e a falta de grandes responsabilidades.

Recordavam histórias que marcaram aqueles anos. Os trotes e pentelhações do primeiro dia de aula; os professores que não davam prova; as atividades entregues na última hora; as discussões na classe; as viagens estudantis (em todos os sentidos); as baladas; os amigos que não iam às aulas; o futebol e churrasco nas sextas-feiras; as mulheres conquistadas; e aquelas que um dia ainda serão conquistadas. Mas naquele dia o papo começou diferente.

O celular tocou antes mesmo de sentarem à mesa. Ele foi atender um pouco distante e voltou rapidamente. O casamento não era mais assunto para o futuro. Era a realidade. Enquanto tomava o primeiro gole de chope, pensou na mulher, grávida de seis meses. Comentou de forma despretensiosa que ela poderia estar ali sentada com o pessoal, e foi quando ouviu pela primeira vez na noite: você não é mais o mesmo.

Ficou irritado. Argumentou que continuava fazendo somente o que queria. Saía com os amigos, praticava esporte, assistia aos jogos do São Paulo nos domingos, viajava, enfim, tudo lhe parecia exatamente igual. Continuava o mesmo.

O amigo de óculos retrucou. Disse que aqueles momentos no bar eram sagrados. Além do prazer de bater um papo de homem para homem, era uma forma de garantir a liberdade. Não tinha sentido querer a mulher ao lado, pois cada um tinha de ter vida própria. E mais, que só assim um relacionamento poderia dar certo. “Numa relação, a gente tem de esperar carinho e amizade, mas nunca segurança”, discursava.

O maridão ficou indignado por um tempo. A discussão prosseguia. O primeiro sustentava que não iria levar a mulher por obrigação, mas simplesmente por desejar a sua presença. O outro repetia o discurso da liberdade, alegando a necessidade de momentos de independência e contato exclusivo com os amigos. Caso contrário, o casal estaria condenado à solidão.

Quando o futuro papai já estava quase se resignando e acatando os argumentos, foi que lhe deu uma luz. Perplexo, olhou no fundo dos olhos do camarada, pensou um pouco e disparou: “Seu filho da puta, você está repetindo aquilo que eu sempre te falei.” E era verdade, mas até aquele instante ninguém havia percebido. Ele estava reproduzindo um discurso que tinha cansado de ouvir do seu interlocutor. Não se sabe bem se estava querendo apenas irritar o colega ou até que ponto tinha incorporado as antigas lições. O fato é que falava com entusiasmo, segurança e propriedade.

Os outros dois companheiros da faculdade, que também estavam na mesa, apenas ouviam e riam. Tentaram mudar de assunto quando a conversa ficou quente, mas não conseguiram. Aquela discussão precisava ir até o fim. O melhor era ignorá-los e continuar saboreando a porção de lingüiça apimentada, com caldo de feijão. Eram os dois mais gordos da turma e faziam por merecer a característica. Estavam no quarto chope enquanto os outros discutiam com o primeiro copo esquentando na mão.

O futuro papai ficou ainda mais confuso quando viu que aquelas eram suas próprias palavras. Começou a pensar que tinha apenas 25 anos e que sempre teve ideais. Por mais que sua vida tivesse ido para um lado, não era necessário mudar sua visão. Podia ser um pai moderno, um marido liberal, um chefe de família diferente.

Mas o delírio não durou muito. Novamente lembrou da mulher com sua barriga já bastante grande. Voltou à realidade. Concluiu que continuava o mesmo e suas prioridades é que eram outras. A liberdade ele já sabia como era e adorava. Agora estava conhecendo o amor.

Acreditou estar bem. Tinha se recomposto e era novamente o dono da situação. Aquela conversa já não o incomodava mais. O ambiente ficou descontraído e eles voltaram a falar sobre assuntos mais tranqüilos. Terminaram mais alguns chopes, pediram a conta, pagaram e levantaram.

Na saída, o segurança do bar, que trabalhava na casa há alguns anos, reconheceu o rapaz que deixava a mesa, freqüentador assíduo em outras épocas. Cumprimentou e perguntou se ele estava indo embora. Ainda era umas duas horas da manhã, mas ele sem dúvida estava. O segurança, que jamais imaginou o que havia se passado naquela noite, se despediu com dois tapinhas nas costas e aquele comentário irônico: você não é mais o mesmo...

        

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