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O Celibato de Seu Amaro

Quinta, 3 de Novembro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Seu Amaro sofreu uma grande desilusão com sua esposa. Dizem que foi quando ela lhe contou que Grapette não é feita de uva. Durante tantos anos ele havia acreditado naquilo, havia pautado sua vida naquilo e, de repente, uma simples frase derrubou toda a sua realidade, como se fosse um castelo de cartas de areia:

- Querido, você sabia que Grapette não é feita de uva?

Dito aquilo, só lhe restou uma opção. Naturalmente, o celibato.

No entanto, como era de esperar, ele precisou externar sua ansiedade, seu nervosismo e sua tensão de outras maneiras. Foi aí que começou a beber. Quando a bebida não mais bastava, passou para o jogo. Em seguida, começou a jogar bêbado. Mas nada mais o completava. O celibato é uma coisa difícil.

Contam que Seu Amaro só encontrou substituto à altura para o sexo no plástico-bolha. A única coisa que lhe dava prazer, que lhe afastava dos pensamentos mundanos e que lhe animava era estourar as bolhinhas do plástico-bolha.

Quando deu conta, Seu Amaro não conseguia mais largar o plástico-bolha. E o vício do plástico-bolha é uma coisa perigosa. Algumas religiões condenam o uso de plástico-bolha e ouvi dizer que sua comercialização é proibida em 12 países da Ásia.

Os amigos, preocupados, fizeram de tudo. Levaram Seu Amaro de volta ao jogo e à bebida, ofereceram-lhe mulheres, tentaram até convencê-lo a trocar o plástico-bolha pelo karaokê. Mas nada adiantava. A vida de Seu Amaro passou a ser o plástico-bolha e ele nunca ficava feliz se não tivesse umas bolhinhas para estourar por perto.

Não mais atendia, quando viajava de avião, ao sinal que proibia o uso de plástico-bolha durante o vôo. E, quando já havia gastado todo o seu dinheiro com o plástico-bolha, ficava rondando os caminhões de mudança, esperando que sobrasse algum para ele.

O celibato custou caro para Seu Amaro. Com o vício do plástico-bolha, perdeu emprego, perdeu amigos, perdeu sua dignidade. Finalmente, perdeu suas posses. Sentado no chão de sua casa, viu todos os seus bens sendo levados pelos agentes do confisco: TV, sofá, fogão, tudo. Ironicamente, embrulhados em plástico-bolha.



De acordo com Daniell Rezende | Um já mandou o comentaise.