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Num determinado sábado à noite...Segunda, 3 de Abril de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais - Ele o quê?!! O Boca virou evangélico. Não vai mais tocar na banda. Ele não pode mais tocar música com sexo, palavrão, drogas... Estavam fodidos. O Boca era baixista da banda de punk Pústula e eles estavam com o show marcado para o sábado seguinte. Iam abrir para o Olga, líder do Toy Dolls em carreira solo, logo depois do show d’As Biônicas. Não podiam desistir. Seria a glória, a maior chance deles. Razor olhou para Chiclé mais uma vez para confirmar, mas o olhar resignado do amigo dizia tudo: o Boca havia encontrado Jesus e não queria saber de músicas do capeta. - Porra, Chiclé, e agora? No dia seguinte, lá estavam os três no ensaio. O novo baixista era muito esquisito. Entrou mudo e saiu calado. A tudo concordava com um meneio de cabeça e um gemido. Não tocava mal. Era grandão, meio gordo e chama-se Romualdo. Razor ficou pensando em um apelido para ele, mas desistiu. Era só esse show mesmo. Depois da apresentação do Olga, ia chover baixista querendo o cargo. Na dita noite, o velho galpão sujo estava lotado. Era impressionante. Toneladas de punks se espremiam em frente ao palco enquanto as gatas d’As Biônicas faziam seu barulho. Só não tinha empurra-empurra na cara do palco, onde pelo menos 30 carecas do ABC demarcavam território com suas tatuagens nazistas. Chiclé e Razor subiram no palco com o baixista novo como se fossem para a guilhotina. Os facistóides eram feios e grandes. O show progrediu bem. Lá para a quarta música a platéia estava mais solta, curtindo com eles e se batendo alegremente. Razor não teve tempo de fazer o agradecimento depois da quinta música quando o até então mudo baixista abriu a boca pela primeira vez: - Oooxe... Eu queria dedicar essa próxima música para maínha, que mora em Juazeiro...
Sabe aqueles caras falantes? Meio gordinho? Fala alto para tudo, tem sempre uma opinião e faz questão que você fique sabendo? Esse era o Miltinho. Talvez por causa dessa lábia toda é que ele namorava as melhores mulheres. Uma delas era a Jéssica. Jéssica não era uma patricinha. Ela era a fundadora do conceito. A moça era um outdoor ambulante, só vestia grife e estava sempre na moda, não importava qual. E como o Miltinho era um cara para o qual não havia tempo ruim, levava-a em qualquer lugar. Inclusive no maldito baile funk que entrava na moda. Estava armada a balada de sábado. Jéssica tinha um pouco de medo dessas coisas, mas como todas as amigas dela estavam indo, ela não perderia por nada. - Ai, Miltinhô, eu preciso de umas roupas novas. Você acha que eu vou entrar no baile funk com um boné da Von Dutch? Você precisa me levar para comprar umas roupas. Jéssica não fazia idéia, mas alguém que conhecia alguém sabia. E lá foi o casal modelo para a maior bocada que eles já se meteram. Uma galeria escura no pé de uma bruta favela. Miltinho, boa praça que era, entrou marchando de cabeça erguida como se estivesse no território dele. Ìa passando e puxando assunto com quem fosse. E Jéssica logo atrás, pingando de vitrine em vitrine. A galera freqüentadora ganhou a fita que alguma coisa muito diferente estava rolando ali. O que era aquele casal de branquelos ali? Foram juntando atrás, seguindo desconfiados. Jéssica, atemorizada, embarafustou-se na primeira loja e começou a se esconder atrás de um milhão de roupas diferentes. Experimentando todas na esperança que a platéia que se avolumava no corredor se dispersasse. Miltinho encheu o saco da vendedora da loja até perceber que não havia mais assunto possível e foi conversar com quem quer que estivesse no corredor. Encontrou uma cara fechada lhe olhando e voltou correndo para dentro da loja, de onde Jéssica emergia com uma calça cheia de bolsos preta de dentro do provador. Em alto e bom som, ele soltou:
Evandro trabalhava na linha de produção da Eaton, uma gigante fábrica de transmissões automotivas e era completamente apaixonado, retardado por futebol. Mais especificamente pelo Palmeiras. E apesar de trabalhar em Valinhos, no interior, fazia questão de puxar pelo sotaque semi-italiano que ele achava que era típico dos torcedores do ex-Palestra Itália. Quando seu gerente pediu que ele organizasse um time de futebol na empresa para jogarem contra a filial do Rio, não pensou duas vezes: - Urra, meu! Mas é claro! Juntou seus amigos, atribuiu as posições escalou um técnico e um preparador físico ali na linha de produção mesmo e caprichou na confecção da estampa da camisa, que por acaso ficou exatamente igual à que o Palmeiras usou quando venceu o Torneio Euro-América em 1991. A diferença era que no peito ela levava a marca da empresa. Treinaram apaixonadamente e como capitão do time, Evandro era exigente. Colocou todo mundo em forma em um mês e preparou várias jogadas ensaiadas. O time estava tinindo. Na sexta feira, bateram o cartão do turno empolgados e na sexta feira pela manhã, rumaram para o Rio de Janeiro em um ônibus que a empresa providenciara. Líquido e certo, venceram o jogo. Foi uma peleja e tanto, mas Evandro não deixou barato: 3 a 1 com direito a um gol seu, ainda que jogando na zaga. Enquanto a tarde caía, o time cansado e muito feliz seguia de ônibus para um pequeno hotel onde se hospedariam. Não muito longe do destino, o ônibus quebra, em frente a um butequinho sujo curiosamente chamado “Bar Rubro-Negro”. Enquanto motorista se comunicava com a central e aguardava o reparo, Evandro e o outro zagueiro entraram no buteco para tomar um café. O lugar estava lotado. Demorou para serem atendidos. Elegante, o dono da humilde birosca perguntou se eles queriam alguns pingos de leite no café, o famoso carioquinha. Sem a menor paciência, ele vira para seu companheiro de posição e brada:
Irremediável alegre e de bem com a vida, Juninho era um menino ao fim da adolescência e descobrindo às duras penas que o mundo adulto podia ser complicado. As dificuldades maiores eram no convívio social na faculdade recém começada. Por ser tão ingênuo e bobo-alegre, ninguém lhe dava atenção, nem as moças, nem os caras. A única que lhe achou alguma graça era a Amanda, uma daquelas super descoladas que estudava no último ano. Amanda achou engraçadinho aquele menininho recém saído das fraldas explicando para o tio da lanchonete como ele gostava de seu pão com ovo frito, igual a mamãe lhe fazia. Falando rápido de boca cheia para a moça mais velha cheia de piercings e tatuagens, ele explicava porque o pão com ovo tinha que ser feito direitinho. Sua mãe (obviamente um resquício de hippie) lhe ensinara que pão com ovo fazia as pessoas ficarem felizes, era leve e saudável. E a Amanda ria da sua inocência. Como era a única mulher que lhe dera alguma atenção afora sua mãe, Juninho num rompante de coragem atípico para o filhote recém saído do ninho, formalmente convidou Amanda para “um encontro”. Amanda ria dos modos gentlemen do baby e explicou em qual boate estaria no sábado a noite, caso lhe interessasse. Juninho não sabia dançar e nunca estivera numa boate antes, mas no sábado à noite, lá estava ele, de cardigã e cabelo lambidinho. O lugar era estranho, só tinha homens, todos altos, malhados, bonitos e com pouca roupa. Juninho ficou intimidado, mas não desistiria, já que já havia chegado até ali (levado pela mamãe, claro). Encontrou Amanda, que ficou supresa em lhe vê-lo, deu-lhe pouca atenção e foi dançar com dois caras muito fortes que ficavam se esfregando nela. Sentadinho no bar, meio sem saber o que fazer, foi abordado por um homem bem mais velho com aquela cara de bobo mau, que também ficou encantado com toda aquela simpatia.
No dia seguinte, a Fátima Bernardes anunciava no Fantástico uma série de inexplicáveis crimes motivados por racismo e ódio contra minorias, despertando protestos de grupos humanitários por todo o país.
coisas que acontecem por aí sempre acontecem com
Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 3 sublimes almas
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