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No meu tempo não era assimSegunda, 24 de Julho de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais - Ah, isso é que é vida... dizia o primeiro deles tilintando os gelos do whisky contra o copo.- É mesmo... dizia outro, e degustava seu charuto. Os outros dois se olhavam e murmuravam qualquer coisa em concordância e novamente o silencio imperava. Estavam os quatro sentados na varanda de uma gigantesca casa num gigantesco condomínio fechado olhando para a grama crescer. O assunto que os quatro senhores tinham para tratar já havia acabado a mais de 20 anos, quando seus filhos assumiram seus lugares nas diferentes empresas. Era quase uma aposentadoria. - E seus cavalos, como estão? - Vendi a maioria. Os que sobraram mantenho só para fazer a alegria da minha filha. - Sei como é isso... - Pois é... - Que sossego, isso sim é que a vida boa... - É, mas nem sempre foi assim. - Não, de jeito nenhum, concordaram enfáticos os outros três. - Eu comecei de baixo. - Eu também. - Eu muito mais. - Eu queria ter tido a sorte de começar de baixo. Eu comecei soterrado. - Eu que queria ter tido o privilégio de começar soterrado. Eu comecei soterrado, endividado e sozinho. - E eu que comecei soterrado, endividado, solitário, sozinho, com frio e com fome? - Eu trabalhava 14 horas, seis dias por semana. Ganhava uma miséria. - Oras, eu trabalhava 14 horas por dia, sete dias da semana e mal ganhava o suficiente para comer! - Pois eu trabalhava 17 horas por dia, sete dias por semana e ganhava só o suficiente para pagar o ônibus para ir para o trabalho. - Ah, privilégio! Eu trabalhava 19 horas por dia, sete dias na semana, e tinha que pegar carona ou ir a pé para o trabalho. Eu só ia trabalhar para poder comer na empresa! - Você é um homem de sorte! Eu trabalhava mais de 20 horas por dia, saía do trabalho só para ir para casa tomar um banho e já voltava para o trabalho e se eu desse sorte de chegar cedo no trabalho conseguia pegar as raspas do pão de quem tomava o cafezinho! - Uma casa? Eu sonhava de ter tido uma casa para poder voltar! Eu morava no trabalho, trabalhava 20 horas por dia, sem fim de semana ou feriado e lambia os pratos no refeitório para ter o que comer! Vendo-se acuado, o anfitrião respirou fundo. - Ok, vamos lá... Eu acordava tomando porrada do patrão, trabalhava 26 horas por dia, 8 dias na semana, nunca tomei banho, lambia o fundo dos tonéis de lixo, nunca tive uma casa, não via a minha família, dormia em pé do lado de fora da empresa passava frio e fome e cuidava da empresa sozinho. – Ufffffffffff... O silêncio novamente se estabelecera entre os quatro senhores. - Se você contar como era para os jovens hoje eles nem acreditam. - Não mesmo! - Não, não, não... - Definitivamente não.
coisas que acontecem por aí sempre acontecem com
Felipe Tazzo | 1 misericordioso comentário
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