Blogs do Morfina
Menu Lateral
Perticipe do Morfina Sobre o Site Fala com a gente Acesso o arquivo Participe do Morfina
Home > > No Hay Banda

No Hay Banda

Terça, 30 de Maio de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Acordou. Levantou-se. Perdeu um pouco o senso de direção e então percebeu o motivo. Não escutava nada. Estava completamente surdo. Nadinha, nem mesmo aquele chiadinho de fundo que a gente percebe quando a noite está tão silenciosa que nem mesmo uma leve brisa se dá ao direito de passear entre as copas das árvores.

Não se desesperou, como se aquilo fosse algo corriqueiro, um resfriado que logo iria passar. Tomou o banho como fazia toda manhã. Desceu as escadas como fazia toda manhã. Sentou-se para o café como fazia toda manhã. Tomou o café com a família como fazia toda manhã. Se alguém estivesse olhando para ele e a boca abria e fechava, respondia com algo que ele achava que soasse com um "ã-hã" ou com um "ok".

E como acontecia todos os dias foi trabalhar. Não teve problemas para chegar no escritório, dirigindo mesmo. Ao entrar falava "bom dia" para todos que cruzavam seu caminho. Nunca soube mesmo se respondiam. Quando entrou em sua sala a primeira coisa que fez foi enviar uma mensagem para sua secretária pedindo para que atendesse todos os telefonemas e retransmitisse os recados por e-mail. Até mesmo às reuniões ele comparecia, e sua eficiência como sempre era notada. Se estava um pouco mais calado, ninguém comentou nada a respeito.

Ao fim do expediente voltou para casa. E também para a mesma rotina dos "ã-hãs" e dos "oks". Foi dormir na certeza de que no dia seguinte tudo estaria normal.

Mas não foi o que aconteceu. O mesmo manto pesado ainda estava entre ele e todos os sons que o cercavam. Ele sabia que uma enormidade de ondas sonoras se chocavam com o seu tímpano a todo instante. Mas por algum motivo as vibrações no seu tímpano não eram convertidas em impulsos elétricos que chegariam no seu cérebro e seriam interpretadas como algo conhecido. Isso ainda não o atrapalhou e mais uma vez ele fez exatamente como sempre fazia.

E uma semana se passou sem que ele escutasse absolutamente nada. Eventualmente a família percebeu que seu comportamento estava mudando, mas era facilmente explicado pelo stress no trabalho. No trabalho a explicação era o stress familiar.

Resolveu visitar um amigo médico, que verificou que não tinha nada de errado fisiologicamente com o seu aparelho auditivo.

Na noite do décimo segundo para o décimo terceiro dia ele sonhou. Mas um sonho sem sons. Um sonho surdo. Até então seus sonhos nunca tiveram sido tão barulhentos como os que tivera enquanto estava surdo. Mas esse sonho não tinha nenhum ruído, nem mesmo o da sua respiração cada vez mais arfante e do seu coração que cada vez batia mais rápido. Cenas e mais cenas vividas por ele passavam como em um cinema mudo, mas sem orquestra. Sua infância no interior, seus irmãos e primos, seus pais e tios. A mudança para a cidade grande, a faculdade, seus amores e desamores, os amigos. Seu casamento. Uma valsa que agora ele só ouvia em uma fraca memória do que aquele momento significava. Pelo movimento dos lábios de sua esposa ele percebeu que ela falava "eu te amo". E ele nunca teve tanta vontade de ouvir aquilo como agora. Uma criança recém nascida chorando, era um dos seus filhos. Mas ele não mais ouvia o choro da criança. Então mais uma imagem, da sua filha, a querida, a que falou "papai" antes de todos e antes de qualquer outra palavra. Ela corria em sua direção, chorando, com medo, se agarrava a sua perna e começava a falar, apontando para o lado. Mas ele não podia ajudar porque não entendia o que ela estava falando. Não. Pior. Ele não a escutava. Não a ouvia.

E aconteceu. No meio de todo o silêncio ele conseguiu escutar uma voz falando claramente, em um tom calmo e sereno. Pausadamente, como que para ter certeza de que ele compreenderia cada uma das palavras. "Ausculte. Antes de ouvir e de escutar. Ausculte."

Acordou suando. Sua esposa levantou-se e falou alguma coisa que ele não pôde ouvir. Instintivamente ele disse que era para ela voltar a dormir, que não era nada, apenas um sonho ruim. Ainda sentado começou a chorar. Como queria ouvir a voz suave de sua esposa de novo. De seus filhos. De seus amigos falando bobagem enquanto bebiam uma cerveja. De sirenes, britadeiras, buzinas, conversas soltas no ar, o carro do padeiro. O barulho do mar... Pensar que nunca mais ouviria o barulho do mar o levou a loucura. Saiu do quarto, foi até seu escritório. Pegou um álbum de fotos e começou a folheá-lo. Tudo o que ele um dia amou estava lá. Família, amigos, lugares, coisas... Dormiu. Sonhou.

Mais um sonho surdo. Mas agora também sem imagens. Ficou com medo de ficar cego. Mas aos poucos ele foi se vendo, como se flutuasse sobre seu corpo. Estava em um ambiente escuro, uma escuridão que se perdia no infinito. Fez o que a voz lhe pedira. Começou a prestar atenção em tudo o que o cercava. Fechou os olhos. Concentrou-se em si mesmo. Apenas o silêncio total a sua volta, cada vez mais opressor, cada vez o esmagando com mais força. Quando achou que estava morto ouviu um leve ruído. E aquilo o fez tão forte como nunca se sentira. Prestou mais atenção. Era um ruído que ele se lembrava muito vagamente. Concentrou-se ainda mais e o barulho ficou mais claro. Uma memória o atropelou com tamanha força que ele agradeceu por estar dormindo. Era o barulho de seu coração batendo. Assim como o vento forte que soprava na praia ele ouviu o sangue correr por suas veias, alimentando todo o seu corpo. O ar entrava com tanta força em seus pulmões que o barulho o lembrou de como era assustadora uma tempestade no mar. Um barulho mais familiar do que todos esses o tiraram desse transe. Uma voz o chamava, chamava. Abriu os olhos no sonho e a luz que então o cercava era tão forte que acordou...

Sua filha estava ao seu lado. Com os olhos semi-cerrados, ainda tão sonolentos. "Papai, eu quero água." Por um tempo ele ficou olhando para sua filha, percebendo o tic-tac do relógio na parede, o ruído de estática do monitor que estava ainda ligado, um cachorro latindo em algum lugar distante, e até mesmo o mar ele ouviu, apesar da distância.

"Papai, você não tá me ouvindo? Eu quero água..."
"Desculpa, filhota. Eu tô te escutando sim."

Lá fora os pássaros começavam a cantar. Era mais uma manhã chegando.



Não dêem muita atenção ao Tiago Barizon | 4 pessoas pitacaram