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Não me diga o que fazer

Segunda, 4 de Setembro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

    - Saraiva, eu quero 800 palavras sobre paqueras em academias, e é para daqui a vinte minutos!
Saraiva pendurava-se no teclado com desespero buscando inspiração. Agarrava-se ao teclado do computador como agarraria-se a uma idéia caso ela surgisse. Olhava para o cursor piscando sozinho no começo da página em branco e perguntava-se porque não levantava de sua cadeira e simplesmente pegava o elevador para rua para nunca mais voltar. Aí ele lembrava das contas, do apartamento apertado, da faculdade do outro lado da cidade, dos livros e de uma esperança vaga de um futuro melhor. E tal como a firme agarrar ao teclado em busca de uma idéia, Saraiva agarrava-se ao emprego.
Não era raro o chefe de redação gritar-lhe um tema da porta de sua sala com um prazo pífio. Mais raro ainda, era o Saraiva ter experimentado qualquer um daqueles temas, dentro da pequena editora de publicações para o público adolescente. Franzino, tímido e não muito másculo, Saraiva nunca havia pisado em uma academia e nem remotamente se lembrava de que cor era uma paquera. Ele não tinha nenhuma habilidade nisso e que se lembrasse, nenhuma menina, mulher ou senhora lhe havia paquerado. Nem os gays lhe davam muita atenção.
Como sempre, Saraiva espremeu todo o seu cérebro em direção àquela proposta esdrúxula e notou que não havia ali grande coisa que servisse para o texto. Escarafunchou no Google, perguntou a algumas pessoas e produziu aquele texto mediano que lhe manteria empregado por ainda mais um dia.
Um dia alguém da alta administração (que não era muito alta) da editora, decidiu contratar um consultor de algo muito abstrato, ali pelo terreno incerto das relações da empresa com o funcionário e este decidiu que os funcionários da instituição estavam oprimidos pelas regras rígidas da hierarquia, o que não era nenhuma novidade. Este consultor também inferiu que as pessoas trabalham melhor quando adequadamente desafiadas, porém lhes é dado o espaço para se desenvolverem, que também não era grande novidade. Por fim, o consultor decidiu que a administração da empresa estava se valendo da força bruta de seus funcionários e não de sua capacidade criativa, o que definitivamente não tinha nem cheiro de novidade.
Nos primeiros dias as relações foram incertas mas com algum progresso, o chefe de redação berrava ordens diferentes:
- Saraiva, eu preciso de 900 palavras sobre algum assunto interessante para adolescentes que complemente a temática da revista esse mês, que por acaso é de tribos urbanas e atitude. E é para daqui a 20 minutos.
Trocou-se seis por meia dúzia. Saraiva ainda fuçava no Google e buscava informações em outras pessoas e outras vidas. Mesmo não estando tão longe assim de seus anos de adolescência, ele não havia muito freqüentado a existência de um adolescente. Era um outsider sem experiência de vida. A liberdade criativa, não passou em branco, no entanto. Para este primeiro desafio, Saraiva levou adiante um belíssimo texto que explicitava a relação dos skatistas com os poodles de madames em parques públicos. Entre rir, chorar, duvidar de si e duvidar do maldito consultor, o chefe de redação publicou o texto e esperou pelo melhor.
Como nenhuma grande bomba explodiu, ficou tudo por isso mesmo e na próxima edição, Saraiva entregou um bom texto de tamanho adequado sobre como rolamentos de rodinhas de skates são bons acessórios para coleiras de poodles de madames. Na edição seguinte ainda, quando o chefe de redação abriu a porta de sua sala para berrar o pedido para Saraiva, ele já estava em pé com o texto impresso na ponta esticada do braço sobre poodles de madame que andam de skate em solos excessivamente arenosos e na outra edição ainda, notou-se que Saraiva andava pela redação vestindo uma enorme fantasia de poodle e portava um skate embaixo do braço. A direção da editora somente preocupou-se em saber se teriam que pagar um salário para a senhora idosa de cabelos louros obviamente tingidos, peitos de silicone, maquiagem pesada e roupas de estampa de onça que portava a ponta da coleira de Saraiva. Como ela aceitou gratamente apenas os tickets refeições, o caso foi abafado.
A coluna de Saraiva fez relativo sucesso, porém o chefe de redação e o consultor concordavam no cafezinho que deixar os escritores sem tema não havia sido uma boa idéia.


coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Um comentário por misericórida!