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Mindingo gringo

Quarta, 26 de Julho de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Hermann era um mindingo loiro, gordo e de bochechas rosadas. Parecia gringo, enganava bem.
Diferente de todos os outros que você já viu, enfim. Não descia do salto de maneira alguma, tamanho 7 de vinil. Eram rosa-choque. Nem precisava deles, porque já era alto demais. Mas claro que o salto era só um acessório psicológico, melhorava seu ego.
Alternava entre duas camisas, uma azul-bebê de babados que iam até a boca do estômago, amarrada por duas cordas que formavam um lacinho, e outra branca, colada, de bolinhas vermelhas. Esta última era quase indecente, com sua transparência gasta que deixava à mostra uma barriga de fartura de MacDonald’s promocional.
Hermann não andava sem seu toca-fitas. Gloria Gaynor era a trilha sonora de sua vida, e deixá-la em casa era inconcebível. Não tinha uma casa, na verdade. Era um trailler que dividia com mais 4 colegas, conhecidos da Lincoln Road. Não competiam no trabalho, por isso a convivência era pacífica. Dois deles eram estátuas, uma renascentista e outra de bronze. Um era pintor, daqueles que usam spray nos papelões de mascara e fazem coisas amorfas e estranhas em papéis fininhos a que chamam de tela. E o outro era garoto-de-programa, do tipo discreto, que “caminhava cachorros” por alguns trocados (lê-se “para conhecer seus donos”).
Hermann mendigava dinheiro e platéia. Com o som num volume inaudível para o burburinho da rua, ele se colocava em frente à galeria de Romero Britto como se travasse uma disputa de cores entre as telas da vitrine e sua performance fantasiada e iniciava a dança mais feia que alguém pode imaginar.
Rebolava, virava os braços e exalava um odor de dar inveja a gambás e mãos imersas em tremoços. Ninguém conseguia se aproximar para colocar dinheiro em seu chapéu Panamá, então ele tinha que se contentar com os atiradores de moeda, que acertavam a mira. Normalmente chegavam só as maiores, de 25 centavos. Se caíam fora, ele até tentava criar um novo passo de jazz para recuperá-la, mas fatalmente um pedestre a encontraria antes e recolheria do chão, como amuleto da sorte.
Por não abandonar seu sonho de virar dançarino de cabaret, Hermann sempre foi mindingo, e desta condição, jamais sairá. Pelo menos, era importado, made in Brazil.

devaneio de: Sil Curiati | Assume que você babou, vai