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Mauro, o Descrente

Terça, 18 de Abril de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Existem pessoas céticas. E existe o Mauro.

O Mauro é daqueles que só acreditam mesmo vendo. Não chega ao cúmulo do seu pai, que achava que a chegada do homem na Lua foi uma montagem em estúdio, mas não dá muita bola para essas crendices. Durante o almoço ele pode derramar todo o conteúdo do saleiro na mesa que não vai nem ao menos se lembrar de jogar um pouquinho por cima do ombro. Seus sapatos ficam espalhados por toda a casa e, num incrível gesto de coragem, aponta para todas as estrelas sem medo de que uma verruga cresça na ponta do nariz.

Certa manhã, ao acordar, deu de cara com um coelho. Era incrivelmente normal. Branquinho como todo coelho deve ser. Orelhudo, fofo, com nariz rosado. Passaria com louvor para ser o protagonista de um comercial de ovos de páscoa, não fosse o fato de ter quase um metro e setenta e estar sentado de pernas cruzadas na cadeira da escrivaninha, folheando uma revista. Enquanto fumava um Marlboro.

Ao perceber que Mauro estava acordado, fechou a revista e se virou para ele.

- Finalmente... Achei que a donzela não ia mais acordar!

- ...

- O que foi? Nunca viu um coelho?

- ...

- Ok, vamos por partes. Primeiro, seria bom se você respirasse um pouco. Segundo, faça o favor de tirar essa expressão abobalhada da cara.

- Isso é um sonho... Só pode ser um sonho. Acorda, acorda! – Repetia Mauro enquanto dava tapas na própria cara.

O Coelho se viu na obrigação de tentar ajudar.

- Olha, isso realmente não vai servir para muita coisa. Quer parar de se bater, homem de Deus! – disse enquanto fazia um rolo com a revista que estava lendo e bateu com ela na cabeça de Mauro.

- Auch! Doeu!

- Ótimo, era essa a intenção. Agora será que você consegue prestar atenção aqui em mim um pouco? Não é todo mundo que tem o privilégio de ter esse tipo de contato.

- Cara, você é de verdade. – E passou a mão no, na falta de um termo melhor para descrever, braço do Coelho. – E é fofinho!

- Ah, não... Lá se vai toda a dignidade de um trabalho bem feito. Você tenta fazer o melhor, se prepara, estuda e tudo o que consegue é um “fofinho”. Por que nunca é “como você é perspicaz” ou “parabéns por sua capacidade de raciocínio”. Tem que ser “fofo”, “meigo”, “cuti-cuti”...

- Desculpa.

- Tudo bem, vamos ao que interessa. Fui enviado para te acompanhar por um dia e servir como uma espécie de conselheiro. Você tem feito muitas coisas erradas, coisas que já teriam te mandado para a melhor se não fosse uma certa simpatia que nutrem por você no plano superior.

- Mas o que eu tenho feito de errado? Eu tento ser o mais correto possível, dou meu lugar no metrô para os velhinhos, pago minhas contas em dia. Até o gato na TV à cabo eu desfiz e tô pagando tudo certinho...

- Não é isso... Quer dizer, isso também. Aliás, é isso que criou a simpatia por você. Mas tá chegando ao limite. Digamos que a bonificação por boas ações não vão dar mais conta.

- Ainda não entendi...

- Veja aqui, no seu quarto, por exemplo. Os sapatos todos espalhados, virados e os pares todos misturados. Isso não presta. Precisamos dar um jeito nisso. – E estalou os dedos.

Mauro ficou meio sem graça, mas achou bom fazer a devida observação.

- Bem, não mudou nada.

- Como?

- Você estalou os dedos e não aconteceu nada.

- Claro que não. Por que você achou que aconteceria alguma coi... AH! A estalada dos dedos... É só uma mania que eu tenho. Vai, começa a arrumar os sapatos.

Depois de ganhar alguns dias de sorte colocando o quarto em ordem, inclusive desvirando os bonés e dando um nó nos seus lenços, Mauro foi tomar seu café.

- Então, como devo chamá-lo?

- Coelho está bom.

- Só Coelho?

- Não, Coelho.

- Hummm... Ok.... Então, Coelho, qual o sentido de tudo isso?

- Veja, existe um número infinitamente maior de pessoas que acreditam que passar por baixo de uma escada da azar do que aquelas que acham que tudo isso é história para boi dormir. Isso já é o suficiente para que realmente dê azar. Tem um toque de forças ocultas e um pouco de inconsciente coletivo. O fato é que não é recomendável fazer isso. O que custa desviar? É tão importante assim cruzar a faca e o garfo depois das refeições? Melhor só deixar um acima do outro...

- Eu era do time que achava que tudo não passava de lenga-lenga de avós e tias.

- Por isso que eu estou aqui. Para dar umas dicas e O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO?!?!?! – gritou o Coelho.

Com o susto Mauro deixou cair o leite no chão, que se espalhou por toda a cozinha.

- Eu só ia fazer uma vitamina!

- De leite com manga??? Você é louco ou o quê? E ainda por cima deixou cair todo esse leite no chão... Pelo jeito vai ser um dia daqueles. Vai, passa um pano nisso aqui rapidinho.

Depois de secar o leite, Mauro assistiu com certa relutância o Coelho jogar um punhado de açúcar no chão.

- Pronto. O açúcar no chão quebrou o azar que o leite derramado ia trazer. Agora vamos indo que você está atrasado para o trabalho.

E assim foi o dia inteiro. Graças ao Coelho, Mauro não vestiu a calça que ele deixou cair no chão e teve que vestir duas vezes a mesma camisa, só por ter abotoado errado da primeira vez. Apesar do mau cheiro e principalmente pela ameaça de levar um soco, Mauro andou o dia todo com um galhinho de arruda atrás da orelha.

Desviou de uma escada no meio do caminho, bateu três vezes na madeira depois de cruzar com um gato preto e ao chegar no trabalho entrou com um pedido para que sua baia passasse a ser a “12B” ao invés da “13”.

Ao voltar para casa, Mauro tinha a estranha sensação de ter perdido alguma coisa. Era o crachá da empresa. Imediatamente Coelho ordenou que ele amarrasse um trapo no pé da mesa e desse três pulinhos para São Longuinho.

- Ele está de férias, mas nunca é demais tentar.

Claro que logo depois do terceiro pulo o crachá caiu de dentro do bolso da camisa, apesar de Mauro jurar de pés juntos que ele não estava lá antes.

Impressionado com tudo, Mauro agradeceu Coelho antes que este partisse.

- Eu tenho aqui uma coisa para você. – Disse Coelho. Entregou para Mauro um chaveiro. Era um pé de coelho.

Mauro, emocionado, pegou o presente.

- Parece que para o bichinho não trouxe muita sorte, né?

- Não se preocupe, cada coelho recebe o que merece.- Respondeu Coelho, um tanto soturno. – Foi um prazer ter a sua companhia. Quer dizer, nem tanto, mas se cuida aí.

- Valeu Coelho. Se precisar de alguma coisa é só... – Não conseguiu terminar. O Coelho já não estava lá. Mas o chaveiro sim, para servir de prova de que tudo tinha realmente acontecido.

Mauro nunca soube, mas só nesse dia ele ganhou mais 17 anos de vida, evitou que uma tia morresse e garantiu que uma prima se casasse.


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