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Marquinhos Cover

Quarta, 26 de Outubro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Desde a infância, Marquinhos sempre sentiu-se por baixo. Seu sobrenome, Tortobello, em nada o ajudava quando resolvia mostrar seus dotes no futebol.


- Chuta direito, Torto do caralho! – gritavam os amigos da rua a cada lance perdido pelo garoto.

Por isso, ele era sempre o último a ser escolhido para compor os times. Mesmo quando a Lulu, a menina-macho da Travessa Teresa Oneda, resolvia jogar. Desiludido, Marquinhos abandonou a carreira futebolística e decidiu apostar nos esportes radicais. Era um belo jeito de se afirmar. Encheu o saco do pai, que era crente fanático, até ganhar uma bicicleta. Daquelas BMX, bem bonitas. Mas a molecada da rua, invejosa, insistia em dizer na cara dele que as Calois eram bem melhores.

Foi a vontade de dar a volta por cima que fez Marquinhos construir sozinho uma rampinha. Para isso, roubou a maderite da construção ao lado, descolou os pregos e fez tudo bonitinho. Enfim, ia provar que sua bicicleta voava muito mais alto. Mas na hora do salto, com a rua toda olhando, Marquinhos esqueceu de ajustar o banco da bike. Mais alto do que o guidão, viu a frente da bicicleta tombar para baixo assim que a rampa acabou. Resultado: quebrou o braço. Sob o riso uníssono da platéia, que rolava no chão, saiu xingando a todos. Escolheu bem as palavras que ouvia do pai e gritou.

- Seus mentecaptos, energúmenos. Deixem-me, malditos!

Sem jamais terem ouvido aqueles termos até então, a molecada achou que tinha sido amaldiçoada e saiu correndo. Desde então, nunca mais ninguém viu ou falou com Marquinhos. Seus pais se mudaram para o interior, a irmã virou prostituta, mas ele mesmo, desapareceu, sumiu, escafedeu-se. Até hoje ninguém ousou tocar a campainha de sua casa para saber o que aconteceu.

Mal sabem os vizinhos que Marquinhos se prepara para uma volta triunfal. Há uma década ele ensaia no violão covers de músicas famosas para tocar em barzinhos. Seu som preferido é Loser, do Beck.



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