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Mais uminha não mata

Terça, 2 de Agosto de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Uminha só antes do casório não ia matar. Faria até bem. A cerimônia era só às 19h, e o relógio ainda apontava meio-dia.

Às 12h30, Domingos chegou ao bar e pediu pra descer uma barranqueira. O dono do estabelecimento piscou pra mocréia que estava encostada na porta e fez sinal pra ela chegar junto do rapaz. Ele explicou que o que queria na verdade era uma cachaça Barranqueira. Disse que iria se casar dentro em pouco. Todos riram em uníssono.

Domingos pensou consigo mesmo que aquele pessoal era bem legal. O moço só não percebeu o sinal de chifrinho feito pelo dono do bar para o pessoal do recinto, fato esse que provocou o riso incontido dos presentes.

Às 13h30 começou a apertar a fome. E como cerveja não é considerada bebida, mas sim alimento, Domingos tomou umas duas ou três pra forrar o estômago. De bucho cheio, tomou também mais algumas barranqueiras. Começou a repensar sua posição em relação à moça que lhe fora apresentada pouco antes.

Em seguida, Domingos tomou uma com limão para não correr o risco de espirrar durante o casamento, um fernett pra evitar frio na barriga, um vinho pra acalmar o coração, uma jurubeba pro mal-estar e, obviamente, um rabo de galo pra arrematar.

Das 14h30 às 18h30, Domingos não se lembra de nada. Diz-se que comeu, bebeu, dançou e incomodou deveras. A maior parte do tempo esteve agarrado a um baleiro, o qual tomou por uma figura feminina e chamava de “cabeçudinha”.

Pode ser que tenha prevaricado. Não sabe. Mas é fato que o estoque de balas de leite acabou. Teria feito apostas, arrumado uma briga, dormido enquanto discutia política com um senhor de aparência rústica, acordado usando um chapéu de palha e agido de cupido para o dono do bar --a quem fez questão apresentar a mesma senhorita que o próprio dono do bar queria lhe oferecer.

Todos os relatos sobre um estranho culto ao deus sapo e uma imitação esplêndida do Décio Piccinini não foram confirmados. Não se sabe também se o misterioso homem que apareceu usando uma capa preta era ele mesmo ou simplesmente um outro idiota fantasiado.

Às 19h, incrivelmente, estava no altar. Tudo normal a não ser pelo chapéu de palha, que não tirou, e por um bigodinho que resolvera deixar no momento de fazer a barba. Além, é claro, da vontade quase incontrolável de tirar um cochilo na sacristia.

Mentex e Costela | 2 comentários