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Mais uma, pelos bons tempos...

Segunda, 19 de Junho de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais


Alguma coisa tem início, lá pela décima-terceira rodada:

– Era um grande companheiro, um líder nato – grita um deles, erguendo o copo. – Nunca vou esquecer quando parou a polícia no peito. No peito! Em plena greve geral de 79. Não poderia ter sido mais corajoso.

– Ééé, isso aí – respondem alguns.
– Ele era muito foda, um exemplo – emendam outros mais.

– Humpf – protesta de modo solitário um, em seu canto.

No instante em que a décima-oitava rodada chega:

– Lembro que outra vez ele entrou na sala da chefia dando pontapés na porta – urrou mais um. – O patrão arregalou os olhos e babava de raiva, mas ele falou que ninguém mais aceitaria aquele tratamento da segurança. Proponho mais um brinde em memória deste símbolo para todos nós.

– Pode crer, ele era o cara – em coro, o restante do bar.

– Humpf! Humpf! – discorda aquele mesmo, sem erguer brinde à memória de porra nenhuma.

Passado certo tempo, já estamos na vigésima-segunda rodada:

– O cara era sensacional! Simplesmente sensacional! – puxa um, aos brados. – Tinha um senso de humor apurado, acima de tudo. Certa vez, em questão de minutos, ele fez uma caricatura do presidente da companhia no banheiro da empresa. Poxa, ele só tinha visto o cidadão uma mísera vez. Aquilo causou um puta constrangimento na chefia.

– Sim, sim. Aquilo foi excelente – empolga-se um.
– Há há há há – resumem outros, às gargalhadas.

– Humpf! HumPH! HUMPF! – o de sempre, debatendo-se para demonstrar todo o seu descontentamento.

O garçom passa trazendo a vigésima-nona rodada...

– Sem contar que ele também era um galanteador – precipitou-se outro. – Vocês se recordam de quando ele seduziu a bela filha do supervisor-geral na festa de confraternização? Acho que foi em 88. Foi muito humilhante para os patrões...

– Vivas! Vivas!!! Outro brinde para ele – retrucou um, levantando-se com o copo.
– Isso, isso, um brinde ao ao... – esboçou um dos bêbedos, demonstrando certa confusão – Mas como era o nome dele mesmo?

– Humpf!!!! – interrompeu aquele do protesto, que, enfim, conseguindo livrar-se das cordas e da mordaça, prosseguiu. – CARLOS, O NOME DELE ERA CARLOS. ALIÁS É CARLOS. SOU EU, PORRA! NÃO MORRI, CARALHO! NÃO SEI PORQUE DIABOS VOCÊS ME AMARRARAM...

– AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHH!!!!! – Diante desta visão, todos correram pela porta do bar, ficando imediatamente sóbrios diante da presença de Carlos.

– Bando de pelegos imbecis – pensou Carlos, agora sozinho no balcão. E para o garçom: – Luizinho, manda uma dose pra mim.



escrevi e saí correndo: Fábio Inverídico | Um comentário