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Madrugada Peluda - Versão Completa

Quarta, 12 de Abril de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais


Chegou em casa e abriu a geladeira com a intenção de tomar um copo de leite... o primeiro dos roedores orelhudos surgiu por debaixo da mesa e mordeu-lhe um dos calcanhares. Mais assustado do que dolorido, ele esquivou-se com o bicho pendurado, meio que se arrastando.

Conseguiu se livrar daquela praga felpuda e correu para o banheiro. Se trancou lá e começou a pensar de onde poderia ter vindo aquela maldição. Ali na sua cozinha, no meio da madrugada. Foi aí que começou a ouvir o som de madeira sendo roída muito rapidamente.

Aterrorizado, viu quando uma lasca da parte baixa da porta deu lugar a um par de dentes velozes. Deu com o rodo bem forte na tentativa de afugentar o bicho. Não surtiu efeito algum. Ou melhor, o efeito surtido foi que agora duas cabecinhas brigavam por espaço, na tentativa de entrar pelo buraco feito pela batida do rodo.

Mas o som de trotar que vinha do corredor indicava uma briga muito maior por espaço do outro lado da porta. Isso, somado ao som de um abajur sendo devorado.

Vocês não podem imaginar como é o som de um abajur barato sendo roído por coelhos.

E ficou pensando o que poderia ser mais incomum do que descobrir no meio da madrugada que seu minúsculo apartamento estava para ser devorado por aquelas estranhas criaturinhas. De onde tinham vindo, também ele gostaria de saber.

Foi mais ou menos nestes pensamentos que se lembrou da dor no calcanhar ferido. Olhou para baixo e viu que o sangue que escorria da mordida já formava uma poça rubra em uma de suas pantufas tão branquinhas.

Daí a se lembrar que nunca teve pantufas de cor alguma, foi um pulo. Depois outro e mais outro.

De pulo em pulo, perdeu sua consciência humana. Abriu a porta, que já não era mais roída, e olhou para milhares de pares de olhinhos e orelhonas a contemplá-lo. Em um movimento orquestrado, todos os coelhos o reverenciaram.
Mexendo seu nariz rosado e os longos bigodes, ele se fez compreender por seus pequenos súditos.

Agora metamorfoseado em um Coelho Real, ele poderia liderar seus amigos, tal qual como a profecia afirmava.

Era só questão de tempo. Hoje, os apartamentos vizinhos... Amanhã, o mundo!

Mas isso, seria depois de forrar o estômago. Afinal, ele era um coelho de 1m77 com uma nação a conduzir e muita, muita fome. Voltou à geladeira, afastou o leite, pegou umas cenouras invisíveis e sentou-se em seu apartamento, agora, bastante bagunçado e vazio.

escrevi e saí correndo: Fábio Inverídico | 4 comentários