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Madalena

Sexta, 21 de Abril de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Madalena era uma quarentona solteira e virgem. A única de cinco irmãs que não tinha conseguido um macho para chamar de seu. Justo ela, que recebeu o nome porque nasceu numa Sexta-Feira Santa que, além de santa, era treze.

Como de costume entre as famílias em que alguém fica para tia, sobrou para ela tomar conta da mãe doente e do pai cachaceiro. Só de vez em quando era que a vida mudava um pouco: quando as irmãs deixavam os rebentos para que ela também olhasse.

O problema era que Madalena era muito feia e azarada. Culpa dos espelhos quebrados, dos gatos pretos no caminho e das escadas pelas quais passou por baixo durante a vida toda, dizendo que, como nascera em dia santo, tinha o corpo fechado.

Nem Horácio, o cara mais pobre, mais gordo e mais feio da região, queria alguma coisa com ela. Quando conseguia algum, pagava para a Dasdores, a meretriz mais barata da cidade, por uma carícia qualquer ou um sabonetinho.

Mas num treze de junho, também sexta-feira, Madalena se enfezou. Deixou de lado toda a paciência com a solteirice e decidiu encarar Santo Antônio. Foi à igreja e pediu uma dica ao padre, em pleno confessionário. O padre disse que tinha dica não, era só pedir bastante para o santo, e fazer uma promessa.

Madalena então rezou, rezou, rezou e rezou. Colocou o santo de cabeça para baixo. Lembrou também de uma simpatia que já tinha ouvido falar. Passou um café bem forte numa calcinha usada. Dizem que é tiro e queda: o homem que tomar o café vira marido.

E não é que deu certo? Apareceu um bonitão na janela na hora em que Madalena acabava de passar o tal café. Ela ofereceu, o cara tomou, pulou a janela e tirou o atraso dela ali mesmo.

O problema é que Madalena embuchou e o cara sumiu. Depois soube-se pela descrição que o cara na verdade não era um cara, mas sim o Boto. É, aquele que sai tirando a inocência das moças nas cidades de beira de rio. Como não encontrou nenhuma outra virgem na cidade (atualmente isso é difícil), teve que apelar e encarou Madalena mesmo.

Como nunca se sabe o que sai da barriga de mulher prenha do Boto, lá fui eu acompanhar o parto. Saiu um Saci, já com a toca vermelha e cachimbo na boca. Depois, veio um Curupira. Eram gêmeos, como todos já desconfiavam, pelo tamanho da barriga.

E, já que essa história não consegue ter um fim interessante, ficou tudo por isso mesmo. Saci, Curupira, Madalena, a mãe doente, o pai cachaceiro e os sobrinhos, todos por ali, com uma visita do pai Boto de vez em quando. E, claro, em todo treze de junto, uma ida à igreja para homenagear Santo Antônio.




por Kleber Carrilho | [n] comentário.