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Lobisomens e braços quebrados

Sexta, 29 de Setembro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Temas livres sempre me apavoraram. O que não deixa de ser paradoxal, já que, para mim, todo tema é livre. Sempre escrevo sobre o que quero. Dou uma enrolada, finjo que vou discorrer sobre o tema proposto e, quando o leitor menos espera, está lendo sobre como quebrei o braço num texto que deveria tratar de índios.

Esta falta de foco me persegue há anos, como a maldição do sarcófago ao arqueólogo profanador. É tão antiga, aliás, quanto meu gosto por filmes de terror, dos quais eu emprestava os monstros que povoavam minha redações no primário. Nas primeiras vezes em que entreguei composições com lobisomens sob títulos como “Sete de Setembro”, a professora achou graça, elogiou minha criatividade. Com as redações seguintes, ela notou: mais que talentoso, eu era incapaz de desenvolver os tópicos sugeridos. Passou a se preocupar, tentou dar jeito, mas não teve como. Pobrezinha. Não há nada que uma professora de 2ª série possa fazer contra uma maldição.

No começo, disse que sempre escrevia sobre o que queria. Antes fosse. Escrevo sobre o que eu consigo. Falam da “visita da musa da inspiração”. A mim ela nunca visitou. Nas poucas ocasiões em que nos encontramos, estava mais para seqüestro. Parecida membro de facção criminosa, me coloca armas na cabeça e me obriga a escrever sobre o que ELA quer. Como terrorista árabe, a inspiração quer divulgar sua mensagem para o mundo. Só nunca entendi que raios de mensagem é essa que mistura lobisomens e braços quebrados. Vai ver é subliminar.

Aquela coisa toda por Leandro Leal | Tá esperando o que pra descer o pau?