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Juventude perdidaTerça, 25 de Abril de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Um primeiro porre merece uma ocasião especial. Essa era a opinião geral da tradicional família Carvalho. O pai, Seu Joel, não queria que acontecesse para o filho caçula, Kimi, que já ia completar 15 anos, o mesmo que havia ocorrido com o primogênito.Vinícius quebrou todos os protocolos e encheu a cara pela primeira vez na tenra idade de 7 anos. Bebeu todo um vidro de Biotônico Fontoura. Aí enfiou a bicicleta de frente no muro do quintal, beijou o cachorro na boca, mordeu a bunda da mãe, mijou no console do videogame, tentou equilibrar uma garrafa de groselha na cabeça, disse que considerava o pai “pra caralho”, enfim, o moleque ficou virado na pantera. Seu Joel, obviamente, ficou muito decepcionado. Menos por Vinícius ter sido precoce e mais por ter sido um porre de Biotônico Fontoura. - E eu tenho todo todo esse uísque, toda essa vodka, toda essa cachaça, todo esse Cynar, todo esse vinho, todo esse coquinho, todo esse conhaque, toda essa tequila, todo esse Martini, toda essa cerveja em casa pra quê? Tenho até Sangue de ET - lamentava-se. A situação piorou quando Joel soube que o menino havia acordado no dia seguinte jurando que nunca mais ia beber. - E agora eu vou criar um padre? Um padre?! Eu não mereço, meu Deus... Mas para Kimi os planos eram outros. Por algum tempo, Joel alimentou a idéia de embriagar o garoto num puteiro. Mas aí pensou que puteiro era outra ocasião especial que reservava para o filho. Não queria queimar etapas, ou Kimi podia acabar enfiado no mundo da religião, como o desvirtuado do irmão. No dia do aniversário de 15 anos de Kimi, Joel não perdeu tempo. - Meu filho, vem cá. Hoje você vai tomar um porre. Escolheu um boteco no centro. Kimi estranhou os salgados velhos no balcão, a sujeira, o cheiro azedo e, principalmente, os estranhos tufos de pelos nos braços do dono do recinto. O pai pediu para descer uma vodka para o rapaz. Kimi deu um gole, fez cara feia. Virou para o dono do bar e pediu: - Não dá pra colocar um energético aí? Aquilo foi a gota d’água para Joel. Um filho abstêmio e outro maculando bebida com energético. Percebeu que não tinha sido um bom pai. Tirou do filho o copo de vodka e bebeu em uma só talagada. Olhou para o dono do bar, que tinha um sorrisinho canto da boca. - Às vezes é preciso embriagar-se para não perder a cabeça - divagou, sem perceber que citava as antigas palavras do grande filósofo Sofocleto.
Mentex e
Costela | 6 comentários
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