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Jurandyr (*)Terça, 26 de Outubro de 2004* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Seu nome era Deyse Lucy. Seu destino, uma incógnita. A única certeza em sua vida era a obrigação de ajudar os amigos, fosse como fosse. E esse fardo a levou ao alcoolismo, às mesas sujas de botecos ainda mais sujos, aos desmaios em calçadas frias e à amnésia, necessariamente nessa mesma ordem. Mas tudo isso não seria lá muito diferente de tudo que seus amigos - aqueles que ela tinha que ajudar - viviam, não fosse sua estranha habilidade em fazer o serviço sujo, aquilo que ninguém mais poderia fazer. Então, tomou mais um gole e foi à luta.Ele nem era tão feio assim. Seu defeito era gostar de Oswaldo Montenegro, não apenas de Bandolins ou qualquer outra música que tocasse no Videokê Raf Eletronics, mas de todas aquelas composições, "OBRAS PRIMAS", em caixa alta, como ele fazia questão de gritar, espalhando perdigotos no ouvido de todos que tiveram a má sorte de sentar-se à mesa suja do boteco sujo naquele dia. Seu nome era Jurandyr. À exceção do Y no nome, nada tinham em comum. Mas Deyse Lucy mais uma vez foi incumbida por seus amigos da difícil missão de calar Jurandyr e como, apesar de bêbada, era uma boa garota, percebeu que a única saída era o ataque sexual. Quando Jurandyr começou a recitar - RE-CI-TAR - "faça uma lista de grandes amigos", Deyse encarou como um sinal: armou-se de coragem, pensou em todos os serviços sujos que já tinha prestado, fez uma lista de grandes amigos e beijou o fanático. Essa história poderia acabar aqui, não fosse a marvada pinga. Sem se dar conta de como isso tinha acontecido, Deyse acordou em um quarto ainda mais sujo do que o boteco, e é aí que entra a amnésia. Havia uma vaga lembrança de um homem inteiramente nu, a não ser pelas meias Speedo, bradando "eu amava como amava um pescador", antes de se atirar à cama. Impelida pela lembrança da lista de amigos, Deyse se aproximou da janela, chamou Jurandyr com um aceno sedutor e o empurrou dali, cantando "Voa Condoooooor". Seus amigos levam cigarros na cadeia, mas no último aniversário recebeu um presente de mau gosto - a obra completa de Oswaldo Montenegro recitada - RE-CI-TA-DA - por Cid Moreira. (*) Inspirada em fatos reais
texto livre de
Juliana Pescuma | Comentários
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