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Judite, a loira do banheiro
Judite, a loira do banheiro
Sexta, 5 de Maio de 2006
* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais
Judite trabalhava havia mais de vinte anos como loira no banheiro de uma escola municipal em Sapopemba. Pegava dois ônibus todos os dias para aterrorizar meninos malvados que desobeciam as mães e as professoras.
Um dia, ao chegar em casa, Judite encontrou o filho chorando. A carrocinha tinha levado o cachorro vira-latas. Decidiu ir atrás do canino no centro de zoonozes. Chegando lá, encontrou uma pedra de sabão com a coleira do finado.
Voltou com o sabão na mão e, para consolar o moleque, comprou uma coca-cola de dois litros. Na hora em que abriu, alguma coisa entupiu a boca da garrafa. Era um pedaço do nariz do cara que dias antes tinha caído na máquina de fazer refrigerante.
Vendo o nariz, Judite se lembrou do marido, que ela tinha conquistado nos primeiros anos de trabalho, no banheiro da escola, e que algum tempo depois disse que ia comprar cigarros e nunca mais voltou.
Começou a chorar por causa das desgraças da vida. Chorava e soluçava. Soluçou durante mais de quarenta dias. Os médicos nada puderam fazer. Judite morreu de soluçar. E a escola municipal de Sapopemba agora está sem loira no banheiro.
Alguém se candidata?
(Se você não estava vivo na década de 1980, vai ser difícil se lembrar da queda do cara na máquina de coca-cola.)
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