Blogs do Morfina
Menu Lateral
Perticipe do Morfina Sobre o Site Fala com a gente Acesso o arquivo Participe do Morfina
Home > > Já te contei aquela...?

Já te contei aquela...?

Segunda, 31 de Janeiro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Vocês devem se lembrar daquele assassinato, que ocorreu anos atrás e ficou conhecido como o crime da gangue do papagaio. É, aquele mesmo, que todos os jornais colocaram em suas manchetes e a polícia nunca conseguiu resolver. Pois bem, se já não estiverem sentados, puxem uma cadeira. Tenho algo a contar sobre este caso, que nem os jornalistas, tampouco a polícia, têm conhecimento.

Pelo começo, aos fatos: como todos se lembram, a vítima foi J. L. Santos, quarentão, solteiro e empresário bem-sucedido do ramo têxtil. Por se tratar de um milionário, todos acharam que, pela lógica, a motivação do crime era dinheiro...

Nada disso. Humor foi a causa. O humor, o humor. Para ser mais preciso, o humor da vítima. Ou, se preferirem, o mau humor de todos nós, que trabalhávamos para aquele puto. Sim, eu era um dos funcionários da SantoTex e o sr. Santos confiava muito em mim. Mesmo assim, decidimos matá-lo.

Meu nome? Para minha segurança, não contarei. Mas não tenho vergonha de dizer que faria tudo de novo. Aliás, faríamos, já que não agi sozinho. Como falei aí em cima, o humor do Santos não incomodava só a mim. E, não querendo me isentar da culpa, o que posso dizer é que a idéia dar cabo dele não foi minha, originalmente. Dona Marta, a secretária do assassinado é quem surgiu na minha sala no meio de uma tarde, jogou uma pilha de pastas no chão e desabafou: não agüento mais!!!  Falei para tomarmos uma café e foi ali, naquele cantinho da copa, que tudo teve início.

Os dias foram passando e, entre cigarros e goles de café, arrebatamos mais alguns colegas que também queriam o fim do Santos. Ah, antes de prosseguir, acho que é hora de revelar por que queríamos tanto eliminar o infeliz.

Imagine que você trabalhe com alguém que te conta as piadinhas mais infames, é teu chefe e, portanto, você não tem como se defender e apenas pode rir amarelo. Mas ele não se toca, pois no fundo é como se contasse para ele mesmo a porra das estórinhas sem graça que para ele têm graça, já que ele termina de contá-las sempre do mesmo jeito, com uma puta gargalhada estrondosa, que também já te provoca espasmos, fora a vontade de estrangular um recém-nascido para ver se ajuda a voltar ao normal.

E, uma vez que os recém-nascidos não tinham nada com aquilo, decidimos estrangular o Santos mesmo. E, se você acha que isto não é motivo para matar alguém, é porque nunca ouviu as piadas do Santos. Bom, com o passar de alguns dias, já éramos cinco, os exterminadores: Benito, do contas a pagar; Gonçalo, o menino do Xerox; Tito, gerente de TI (Tecnologia da Informação); Dona Marta, a secretária de Santos; e eu, que só posso dizer que era o funcionário de cargo mais alto dentre todos.

Tudo ficou acertado para uma inocente terça à noite, para não levantar suspeita, mas havia uma contradição nisso, pois combinamos que cada um agiria fantasiado como um personagem daquelas malditas piadas. Algo apenas simbólico, mas que tinha importância para todos na época. Tá, coisa de louco mesmo, e daí?!

No horário combinado, Santos saiu com seu carro e não deve ter acreditado quando viu um tomate gigante atravessando a rua da empresa. Saiu do carro dando aquela gargalhada imunda. Bastardo, basTARDO, BASTARDO... Desculpem.

Aproveitando o instante de descuido do chefe, Benito, vestido de pontinho amarelo, saiu de trás de uma árvore e pulou por cima do carro, acertando Santos em cheio, no peito. Só que, uma vez no chão e para nosso espanto, a gargalhada de Santos não esmoreceu. Muito pelo contrário, parecia ganhar ainda mais força.

O resto de nós chegou junto, numa kombi. Tito numa camisa de força, eu, vestido de português e, finalmente, Dona Marta, numa fantasia de papagaio. Amarramos e amordaçamos o idiota, que estava quase desmaiando de tanto rir e levamos para o local combinado. Só que aí, as coisas fugiram um pouco do controle...

(Fim das transmissões)



escrevi e saí correndo: Fábio Inverídico | Dois comentários