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História quase sem álcoolSegunda, 17 de Julho de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Fel, Alcatrão e Quiabo eram vizinhos há muitos anos e até se davam bem, considerando que todos os três possuíam gênios terríveis. – O caralho que meu gênio é terrível, narrador. Experimente viver como ele, preso numa lâmpada minúscula por séculos, para você ver – reclama Alcatrão. Bom, não te falei? Mas como ia dizendo, o trio vivia na mesma rua e compartilhava uma peculiar forma de ver as coisas do mundo e, sobretudo, de criticá-las. – Que dia mais belo, faz um sol lindo aí fora, Fel. Por que não aproveita e sai para passear um pouco – sugere Billy, pai de Fel. – Mas você está louco, não viu a mais recente pesquisa da Sociedade Mundial de Combate ao Câncer de Pele? Trata-se de algo assustador, quer que eu morra, quer?! – rebate Fel. – Até que não seria má idéia... – deixa escapar o pai. – Ãhn... – espanta-se Fel. – Nada não, nada não – finaliza Billy. E durante muito tempo, tudo correu na mesma merda na tal rua dos três amigos, até que o destino fez com que uma nova família fosse morar no local. Dois jovens irmãos, João e Maria, e sua vovozinha, a Bruxa, se mudaram no início do outono e, após meses de reforma, transformaram a velha casa que compraram na mais exuberante residência da rua, para o ódio dos outros vizinhos venenosos. – Olha que merda, uma casa toda feita de doces. Me dá nojo só de ver, imagine cagar numa privada de rocambole?! – começou Alcatrão. – Tá na cara que não combina em nada com o restante da rua – emendou Fel. – Acho que deveríamos derretê-la durante a madrugada, fazendo com que vire uma imensa calda de caramelo... – A idéia de queimá-la não é tão má, se bem que ainda prefiro minha sugestão inicial envolvendo coquetéis molotov cheios de formiga... – argumentou Quiabo, que de longe era o menos esperto dos três. Mas nem calda de caramelo nem coquetéis molotov cheios de formiga, o trio de amigos tentou resolver a questão dos novos vizinhos de outro modo, por meio da velha e boa intriga. Primeiro, os três se aproximaram dos moradores, principalmente da velha Bruxa, avaliando ser esse o elo mais fraco. Porém, a vovó logo mostrou ter muitos anos de vassoura. Ao contrário do que queriam Fel, Alcatrão e Quiabo, a Bruxa jamais realizaria um feitiço e cozinharia seus próprios netos. A tentativa seguinte foi a de colocar João e Maria um contra o outro. Algo que também se mostrou inútil. – Ela disse que você é diabético – soprava Fel no ouvido de João. – Ele me falou que você tem cada cárie do tamanho de um joelho – destilava Alcatrão sempre que Maria lhe dava atenção. De nada adiantou. Os irmãos, claro, eram muito dóceis. Por fim, quando eles já se conformavam, eis que Quiabo teve uma idéia. Bastou um telefonema para a fiscalização da Prefeitura e tudo se resolveu rapidamente. O Contru rapidamente chegou e interditou a casa, alegando incompatibilidade da obra com a área em que foi construída. O laudo final julgava se tratar de um verdadeiro atentado à paisagem urbana, sem mencionar que a Rua da Amargura era tombada há tempos pelo Patrimônio Histórico da Humanidade. Assim, os amigos enfim conseguiram o que queriam e puderam comemorar com muito Cynar, em uma história sem final feliz e muito menos moral.
escrevi e saí correndo:
Fábio Inverídico | 4 comentários
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