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Hilda, Drummond e Cecília

Sexta, 16 de Dezembro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Esta história de falar português é um grande barato. Não só porque nossos palavrões são os melhores e mais detalhados, mas também porque nossa literatura é fabulosa. Imagine se você não tivesse nascido por aqui e não conseguisse compreender Hilda Hilst:

De pau em riste
O anão Cidão
Vivia triste.
Além do chato de ser anão
Nunca podia
Meter o ganso na tia
Nem na rodela do negrão.
É que havia um problema:
O porongo era longo
Feito um bastão.
E quando ativado
Virava... a terceira perna do anão.

Ou não pudesse imaginar a bunda do Drummond:

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar

E se não tivesse como escutar Cecília?

Conservo-te o meu sorriso
para, quando me encontrares,
veres que ainda tenho uns ares
de aluna do paraíso...

Leva sempre a minha imagem
a submissa rebeldia
dos que estudam todo o dia
sem chegar à aprendizagem...

Então, por isso, hoje, em vez de escrever, preferi ler.


por Kleber Carrilho | Comentários