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Há vagas para prosopopéias
Há vagas para prosopopéias
Sábado, 4 de Dezembro de 2004
* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais
– Era melhor ter vindo de terno – lamentou consigo, em pensamento. – Putz, onde diabos estava com a cabeça para não vestir um terno para uma entrevista de emprego?
A voz da entrevistadora corta-lhe o raciocínio: – Pelo que vejo aqui, você é experiente... – Éééé, sem dúvida – responde. – Segurança patrimonial? – Sim, trabalho há muitos anos com isso – ele complementa. – Muito bom. Acho bem interessante esta área – diz, e levanta os olhos dos papéis para encará-lo. Belos olhos, aliás – Ah, não é nada de mais, posso até mesmo dizer que nasci para isso – afirma com modéstia. – Tem facilidade para apreender coisas novas? – Mas é claro que sim – mentiu. – E o que você considera como sendo o seu ponto forte? – Disciplina. Sem sombra de dúvida, faz parte do meu caráter – disse, enquanto pensava: – Caramba, esta entrevistadora é uma gata. – Hobby? – Ãhn! – ele, pego de surpresa. – Éé, hobby? O que você gosta de fazer nas horas de folga? – Bem, gosto de passear no parque, sabe. É onde encontro meus amigos...
Foi bem no finalzinho desta frase que percebeu o começo de uma coceira perto da virilha. Veio chegando e, sabe-se lá se por conta do nervosismo ou o quê, foi se intensificando, se intensificando e, de uma hora para outra, beirava o insuportável.
– Aceita um cafezinho? – a gata, de repente. – Ah, não, muito obrigado – tentando manter a normalidade. Com todas as suas forças, ele tenta não se concentrar na coceira. – Era só o que faltava agora, diacho! – ele, em pânico.
A entrevistadora continuava a ler e fazer anotações, calmamente. Pelo jeito, mal percebendo o quanto seu entrevistado estava rígido, do outro lado da mesa. – Droga, quequeufaçoagora, porra! Não estava agüentando mais. Tinha que fazer alguma coisa. Mas o quê!? – Cacete, cacete, preciso dar um jeito nisso – delirando. – Esta coceira está me deixando louco. Louco! Louco! Louco!
Bastou. Sem condições de segurar mais, ele se curva de repente e começa a morder seguidamente a barriga, desce os dentes até a virilha, se retorce para alcançar o dorso...
Neste instante, um forte trovão anunciou a tempestade e uma primeira gota caiu no entrevistado. De um salto, a entrevistadora passou para o muro, dali correu para uma árvore e, com mais um pulo ou dois, já estava no telhado onde achou um buraco numa telha quebrada. Sumiu. Molhado e sozinho ali naquele terreno baldio, ele, por fim, se convenceu de que a entrevista havia terminado.
Frustrado, sacudiu o corpo todo e resolveu ir embora: – Droga, maldita hora que fui buscar os chinelos e o jornal...é isso que dá ficar entrando nas novidades daqueles dois.
Porém, antes de voltar para casa, onde os donos já estavam preocupados com seu sumiço, deu uma passada no pet shop para comprar um talco anti-pulgas da marca mais barata e algumas cervejas.
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