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Há uma primeira vez para tudo

Quarta, 18 de Outubro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

"Pra tudo tem uma primeira vez."

Quem nunca ouviu esta frase?

Desde o primeiro prato de sushi comido com hashi (ou melhor, a tentativa de comer com aqueles pauzinhos sem derrubar o peixe, o arroz, tudo junto quando está chegando à boca, tal e coisa), até o primeiro beijo (também diria "a tentativa de", porque raramente é bom e tranqüilo), a gente ouve isso dos outros e de nossa própria consciência "ah, tem que experimentar, provar, tentar, é assim mesmo, pra tudo tem uma primeira vez".

Tanto que acaba virando desculpa: se você nunca fez algo logo vai imaginar que deveria, simplesmente porque a frase diz que TUDO deve ser feito. E TUDO implica coisas boas e ruins. Particularmente, prefiro deixar passar, filtrar, e usar só quando me for conveniente.

Já pensei horas sobre este tema, depois de uns tragos a mais, e cheguei a fazer listas das coisas cuja primeira vez me marcaram. Algumas delas:

- Primeira aula de ballet: chorei horrores porque era pequena (3 anos) e estava numa sala de gente grande (uns 5 anos, elas deveriam ter), mal me mexia;

- Primeiro porre: de ponche, no casamento da Tia Sueli, minha professora da 1a série. Eu tinha 7 anos e achei que estava tomando suco. Meu pai me carregou no colo, porque eu só ria e estava tonta;

- Primeiro peixe que comi: era ruim, fedido e odiei... foi no Perequê, eu devia ter uns 6 anos e não comi peixe até uns 10 depois disso;

- Primeiro osso quebrado: do pé esquerdo, derrubada por um moleque, aos 7 anos, nas imediações do trepa-trepa do parquinho do colégio - doeu muito;

- Primeira cirurgia: tirei as amígdalas aos 3 anos, meus pais me enganaram ao me levar ao hospital dizendo que eu faria uma visita a um tio doente. O momento da anestesia me marcou muito, mas ganhei panelinhas ao sair da sala;

- Primeira troca de dente: eu já tinha os 2 definitivos e os de leite não caíam, ou seja, havia 4 dentes ocupando o mesmo espaço. Tive que arrancar e foi ruim; - Primeiro beijo: uma caca, e foi filmado por um cinegrafista idiota que ficou parado horas com a câmera no mesmo ponto, só porque a aniversariante, minha amiga, tinha derrubado a cesta de lembrancinhas e ele queria registrar... azar o meu que estava atrás;

- Primeiro filme no cinema: ET, em Santos. Tive medo da cena da floresta, e um moleque chutou meu assento durante o filme todo;

- Primeiro disco de adulto: Paul McCartney, porque eu amava No More Lonely Nights. Comprado no Museu do Disco, e veio com um trequinho de veludo para limpar;

- Primeira viagem ao exterior: Disney, com irmã, primos e vizinha. Foi o máximo;

Podia passar o dia listando, acabei de lembrar de outras primeiras vezes engraçadas o suficiente para merecerem um texto só delas. A sensação de primeira vez, normalmente, é muito melhor que o acontecimento em si. Só pelo fato de ser novidade, pela necessidade que às vezes temos de esconder o quanto não conhecemos o assunto, de disfarçar a inexperiência.

Aliás, neste fim de semana tive uma primeira vez que me deixou um tanto sem graça: fiquei perdida pelo Rio de Janeiro e tive que pedir abrigo a um desconhecido (amigo de amigo, não um qualquer, veja bem) no meio da madrugada, já que não encontrei conhecidos disponíveis.

Me hospedei muito bem numa sala de um apê lindo em Copacabana. Não foi a primeira vez que exercitei minha cara-de-pau, ao contrário, foi a primeira em que não consegui esconder meu constrangimento por ter uma. Mais uma primeira vez pra lista, que espero nunca parar de atualizar.    



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