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Glicose na veia
Glicose na veia
Segunda, 24 de Abril de 2006
* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais
São sete da manhã de uma sexta-feira em uma escola estadual do bairro da Aclimação, na Zona Sul de São Paulo.
Estamos em 1993, ano em que completei 16 anos.
Nas próximas horas terei a chamada dobradinha, aula dupla de uma mesma matéria, no caso Química. A professora é a Lieko, descendente de japoneses que não escuta muito bem e costuma carregar uma espécie de vareta retrátil com que aponta para o resultado dos números de moles nas equações de físico-química que tenta nos fazer entender.
Por vareta retrátil, imagine algo parecido com aquelas antenas internas dos televisores antigos, aquelas que tentávamos "potencializar" colocando Bom Bril nas pontas.
Mas ainda não subi para a aula. Acaba de soar o sinal, antes vou dar uma passada no banheiro.
Entro e surpreendo quatro colegas que me olham meio-assustados com copos e uma garrafa nas mãos. O líquido transparente da festinha é vodka. A marca, jamais esquecerei: Bakunin. O que havia esquecido é que eles tinham dito que trariam bebida para a escola naquele dia.
Algo bastante transgressor, pois lembre-se, tínhamos 16 anos e o ano era 1993.
Acho que só não participei da organização do evento por pura preguiça, já que ser idiota a ponto de tomar um porre na escola tinha muito a ver comigo.
A prova da minha imbecilidade é que recém-integrado às festividades, já virei dois ou três copos que iniciaram uma guerra civil no meu estômago vazio. A garrafa continua passando de mão em mão na alegre roda. Euforia crescente, que é interrompida quando uma das portas dos mictórios abre de supetão. Pois é, ninguém havia se preocupado em checar se mais alguém estava no banheiro. Mas estava. Eis que surge Jacomo, aluno pouco mais novo, do primeiro colegial, ou seja, não era da nossa turma tão "mais velha".
"O que estão fazendo?", pergunta.
"Nada, fica na tua", responde um. "Saí fora e não abre o bico", emenda outro.
"Caras, vocês estão bebendo!?", continua. "Que coincidência, eu também." E ergue uma garrafa quadrada e verde-escura. Whisky Buchanan’s 12 anos, surrupiado do estoque do pai, se me lembro direito.
Todos olham atônitos para a coincidência na mão do rapaz. O descrito até aqui ocorreu rápido, mas mesmo assim precisávamos subir, pois o sinal já havia soado e logo algum inspetor iria averiguar se ninguém estaria matando aula no banheiro. Deste modo, houve uma rodada de whisky para todos por conta do Jacomo, mas mesmo assim restava bastante bebida na garrafa.
"Vou jogar fora!", ameaçou o dono da garrafa.
"NÃÃÃOOO! Dáissoqui pra mim", ponderei, já completamente bêbedo. E matei minha sede ancestral com alguns grandes goles do whisky.
Aqui terminam as minha lembranças conscientes. Daqui por diante, trabalho com base no que me contaram, quando voltei para a escola, após cumprir uma semana de suspensão.
Fomos todos encontrar Lieko, mas como não quero que isso aqui vire um livro, pois já está bem grande para um texto do morfs, resumo.
Ao entrar derrubando cadeiras e colegas no trajeto até o fundo da classe, fui convidado por Lieko para sentar-me na primeira fileira. Refiz o caminho levando mais alguém comigo e desabei minha pesada cabeça na mesa. Batendo com a varinha retrátil na minha nuca, a professora tentava averiguar o que havia de errado comigo. Ao sentir o cheiro de álcool, advertiu com forte sotaque oriental: "Bebendo na escola, coisa feia."
Fui colocado para fora, onde, disseram, causei algum tumulto. Com o auxílio de colegas, desci ao pátio para tomar um ar, beber uma água, etc e tal. Uma vez no espaço aberto da escola, inconscientemente escolhi um ponto estratégico de onde todas as classes conseguiam me ver pelas janelas e, claro, vomitei.
Acho que sempre fui bom em dar shows.
Às dez da manhã, segundo relatos, era levado pelo diretor Prado para o hospital municipal, com a cabeça para fora da janela do carro. Quem via a cena não devia estendê-la muito bem.
Na entrada, caio de uma cadeira de rodas onde Guto, um dos companheiros de bebedeira, me colocou. Num vislumbre de consciência, ouço ele me cochichando: "Não diga que bebemos na escola, diga que bebeu na padaria". Assenti, malemolente, e comecei: "EU BEBI NA PADARIA, EU BEBI NA PADARIA. E-U BE-BI NA PA-DA-RIA".
Pronto, estava claro para o diretor que tínhamos bebido na escola.
Acordei, ao meio-dia, com o chute que meu pai deu na maca. Ele havia sido chamado às pressas e não parecia muito satisfeito com isso. Ao abrir os olhos, vi um enfermeiro negro, barbudo e sorridente atrás dele. Andando com dificuldade pela rua observo meus avós, na calçada, do outro lado, pareciam bem preocupados.
Não sei se devido à glicose que tomei ou a bebedeira mesmo, fiquei dias mal. Talvez tenha sido a combinação, sei lá.
Soube que Jacomo desmaiou ao tentar pular o muro dos fundos da escola. Sua mãe estranhou que ele não tivesse chegado às 14h em casa e alertou a escola. Uma busca encontrou seu corpo levando bicadas das aves. Acho que ele foi expulso, junto com uma menina que também bebeu.
O certo é que de lá para cá, muitos porres vieram, mas nunca acompanhados de glicose. Whisky e vodka demoraram anos para voltarem a minha dieta alcoólica. Nunca mais vi o Jacomo. Escrevo no morfina às segundas. E tenho uma varinha retrátil na minha casa que não serve para nada.
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