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Fila Em Um Ato

Terça, 21 de Março de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Fila
Tragicomédia tupiniquim em um ato

Personagens:

PaiQuarentão, bem apessoado, notadamente quer aparentar menos idade do que realmente tem. Usa roupas casuais, cabelo bem penteado, cheio de pose.

FilhoAdolescente, 17 anos. Usa bermuda e camiseta, boné. O tempo todo mascando chiclete. Está constrangido pela presença do pai.

SenhorHomem de 70 anos, usando uma bengala, calças usadas, velhas. Óculos e um cachecol.

Primeiro ato:

A cortina sobe. O cenário mostra uma rua, as personagens estão na calçada. Da coxia direita sai uma fila de figurantes, que só termina na coxia esquerda. No meio do palco estão os três personagens principais. Os figurantes ao longo da cena atendem celulares, conversam com as pessoas na frente ou atrás, consultam o relógio, lêem livros ou jornais. Sonorização externa, carros, buzinas, pássaros, sirenes...

Pai falando alto: ...mas ninguém percebeu. Então foi numa fila mais ou menos como essa que você foi concebido. Pensando bem foi uma sorte você não ter um nome como Filaustáquio!
Gargalha ainda mais alto.

Filho embaraçado: Putz, pai... fica quieto!

Pai: Pô filhote! Não tem ninguém prestando atenção... Aliás, esse é um problema dos dias de hoje. Ninguém mais se importa com nada. Todo mundo fechado no seu próprio universo. Antigamente a gente entrava sozinho numa fila e saía com pelo menos mais dois amigos novos. Com quantas meninotas eu não saí logo depois de uma fila, hein, hein?
Gargalha novamente.

Filho: Ai....

Senhor: Meu jovem, seu pai está certo. Antigamente a fila era um evento social. Hoje não passa de um inconveniente ao qual temos que nos submeter.

Filho: Pronto pai, olha, agora você pode fazer um amigo novo.

Pai: O senhor desculpe a falta de modos do garoto. Sabe como é... Muito computador e pouco convívio social.

Senhor: É, já se foi o tempo de jogar na rua. Hoje é só Internédi.

Filho: Internet!

Pai: Mais modos, filho. Respeito é bom e faz bem pros dentes.

Senhor: Mão se incomode. Eu tenho cinco netos e sei como é. Faltou é fila para essa geração. Esse negócio de se falar no computador, ir no banco no computador, fazer compras no computador. Ninguém mais tem tempo de fazer hora numa fila.

Pai: Pois é, e tem gente que ainda tem a impertinência de pagar para que um outro fique na fila por ele!

Filho: O que, aliás, seria uma ótima solução. Eu poderia estar em casa e você no trabalho.

Pai: Mas e os momentos que um pai quer dedicar ao seu filho? Fica onde?

Filho: Porra pai, tem que ser na fila esses momentos? Não pode ser na hora do jantar?

Senhor: Não é a mesma coisa. A fila ensina muita coisa para a gente. Todos os macetes que você vai levar pelo resto da vida. Amizades que se formam, intrigas que nascem. A hora certa de chegar, os melhores passatempos, como evitar que furem a fila. Você vai perceber com o tempo que a vida toda é uma fila. Nós estamos sempre esperando por algo, estamos sempre na frente de uns, atrás de outros. A lição que se tira é se nos conformamos com nosso lugar ou se aprendemos a chegar mais cedo, nos esforçar mais e pegar uma senha menor na boca do caixa.

Pai: Viu filho. É disso que eu tô falando. Algum amiguinho seu do Orkut teria palavras tão sábias para oferecer?

Filho: Ah, pai... dá um tempo...

Pai: Desculpe novamente pelos modos do menino. Mas é como o senhor disse. Um dia ele vai perceber.

Senhor: Pode até ser, mas acho que não numa fila... A época de ouro das filas já passou e eu... AAAARRRGGGHHHHH!!!!
Segurando o peito na altura do coração o senhor cai lentamente no chão, vítima de um enfarte.

Pai: Meu Deus! Alguém ajude! Um médico! Tem algum médico nessa fila...
As pessoas na fila não se dão conta do que acontece

Senhor falando com dificuldade: Eles já devem estar chegando. A fila é do hospital...

Filho: Não... Na verdade aqui é a fila para matrícula na faculdade

Senhor: Droga... Sabia que a fila tava andando rápido demais. Falando cada vez com mais dificuldade. Lembrem-se. Mantenham a fila... Esse é o seu l.. l... lega.... legadoooo...

Luzes baixam e a cortina se fecha.

Fim



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