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Fila é coisa de pobreSábado, 25 de Março de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Nada melhor do que uma boa fila para jogar na sua cara que você é pobre. Se não fosse, daria um jeito e não estaria ali. Aliás, a relação “quantidade de fila enfrentada X mês” é uma boa maneira de analisar se um cara tem ou não dinheiro.Se em 30 dias a pessoa não pegar nenhuma fila é sinal de fortuna. Observe: rico não espera em banco, ele manda o boy. Também não encara fila no restaurante, ele tem reserva. Tampouco se aglomera na entrada de shows ou jogos, ele vai direto para o camarote. No cinema e teatro, ele é convidado e passa ao lado da catraca. Padaria, farmácia e supermercado são lugares que um cidadão abastado dificilmente entra. Fila em pedágio não existe, porque viagem é de helicóptero ou avião, dependendo da distância. Fica até difícil para mim, pobre, imaginar o que esse cara faz com tanto tempo livre. Mas o fato é que a fila é um grande indicador de classe social. Tem gente que vai achar esse conceito exagerado, porque existe a tal classe média. No meu entender, porém, a fila acaba com a existência da classe média. É pobre e acabou. Ou ainda pior. O cara “classe média” é o pobre alienado, satisfeito e cego. Um “classe média” convicto nem mesmo na fila percebe que é pobre. Ele não pensa nisso. Nem olha em volta para se comparar com os demais. Fecha os olhos para o que não quer ver. E nem percebe que 80% das filas garantem uma vil recompensa para quem enfrentou: pagamento. O cara faz fila para pagar e, depois de desembolsar a grana, sai satisfeito e aliviado, porque terminou a espera e o tempo perdido. Poucas horas depois provavelmente estará em outra fila qualquer... |