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Fiai!

Terça, 21 de Novembro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

Fiado é bom, saudável. Essa história de cartão de crédito, cheque especial, nada mais é do que a versão modernizada e institucionalizada do bom e velho fiado. Basicamente tudo se resume a apropriar-se de algo fortuita e irresponsavelmente, sem ter como bancar. Que delícia!

A burocratização do fiado, no entanto, elimina o caráter social que envolve a relação entre fiador e fiado, aquela aposta cega no caráter do bêbado que quer saideira, a cara de inocente de quem diz esqueceu a carteira, a esforçada dona de casa que passa dificuldade. Puseram até nome difícil para todo o processo de fiança: chamam-no, na universidade, de "fluxo de caixa". Parece até engenharia e não coisa de armarinho e boteco.

É claro que tem gente que abusa, pede fiado seguido, não devolve nem retribui quando solicitado. Tem gente que a gente logo vê que é bom pagador, combina e cumpre, pontual, britânico, parece que pega fiado por esporte. Tem gente que fia tudo como se fosse padaria: o pão é baratinho, pensa que o dono nem vai lembrar quando o vir novamente. Mas não é verdade. Só quem vende fiado sabe como lembra sim.

Tem gente, no entanto, que morre de pavor de fiado, como se a vida fosse apenas feita de planos, seguros de saúde, vida, carro, perde todo o caráter social e, em vez do tal "fluxo de caixa", faz a outra tal da "poupança". Acaba por comprar o carro esporte depois que já casou, compra a bicicleta com marcha quando já não usa mais porque engordou 20 quilos trabalhando como corno, paga a saideira, sem fiado e só para os amigos, pois a diabetes já não permite mais beber cerveja.

Quanto a mim, eu vendo amor. Fiado sim. Pode vir, se apropriar, leva por quilo. Mas compre enquanto tenho, pode acabar breve. Compre fiado, fique devendo amor. Compre de outros também. Faz bem. Não economize. Não deixe de comprar só porque não tem amor pra pagar no momento. Endivide-se. Quanto a mim, quanto mais me deverem amor, melhor. Mas vem logo, pode acabar. Não é todo mundo que vende amor fiado, a notícia logo se espalha, de pronto todos fazem fila: pais, amigos, irmão, cachorro, namorada. E se chegar depois da namorada, já era.



O Aloísio que não é do campo é o Aloísio da Cidade | hmmm, já mijaram neste póst