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Estevão era um coelhoSegunda, 17 de Abril de 2006* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais Estevão era um coelho. Mas ao contrário do que todos pensavam, era um coelho muito real. Acordava cedo, trabalhava, cursou faculdade, pagava suas contas, havia tido alguns relacionamentos, mas nenhum havia dado certo. Em certo momento da vida, havia sido figurante numa propaganda da Energizer, tocando incessantemente seu tamborzinho. Encontrou nas gravações uma coelha rosa que não lhe desgrudava os olhos, mas sua breve paixão acabou-se quando um dos técnicos de efeitos especiais desligou a fofura e jogou-a numa caixa. - Típico! Apaixonado por um boneco de publicidade! – Ele reclamava para si mesmo, enquanto contava o salário mirradinho e acendia um cigarro na saída do estúdio. Estevão era assim mesmo. Acordava e só percebia que estava chovendo quando trancava a porta. Sem guarda-chuva, corria de uma marquise para a outra, tentando chegar razoavelmente seco no ponto de ônibus, apenas para receber o maior banho de água suja de um carro que atropelara uma poça. Chegaria atrasado ou molhado no trabalho, quando não ambos. Se conseguisse secar-se mal e porcamente no banheiro, seu chefe precisaria urgentemente daquele relatório e o aguardaria em sua mesa, percebendo o quanto ele se demorava. Estevão voltava para secando os pêlos e lá estava o chefe com cara de poucos amigos. Não era raro Estevão esquecer sua carteira no dia em que o pessoal do escritório resolvia almoçar juntos. Em geral, inventava uma desculpa para não ir, menos se dava pela falta dela no próprio restaurante. Envergonhado, pedia emprestado o dinheiro para um colega. Foi num desses dias nas quais as pequenas coisas da vida davam muito errado que Estevão realmente se viu com problemas. Voltando do trabalho cansado e com fome, por ter novamente esquecido a carteira em casa, percebeu que o caminho que o ônibus fazia lhe era muito estranho. Sim, ele havia, além de tudo, tomado o ônibus errado. E sim, claro que chovia. Xingando todos os deuses do panteão, desceu do ônibus e começou a calcular quantos passes ainda lhe restavam, desviando da chuva sob o toldo de uma loja. Rezava para não ser assaltado e perder sua única esperança de conseguir chegar em casa quando sentiu a pesada mão da lei lhe bater o ombro. - Olha o que temos aqui! Vamos lá, Pernalonga, passa os documentos para cá! Estevão não poderia ficar mais branco do que já era, mas seus pêlos molhados arrepiaram-se. - Veja bem, meu nome é Estevão e eu não trouxe minha carteira. Esqueci em casa. - Estevão. - Veja, eu sou trabalhador, só peguei o ônibus errado estou aqui... – Dizia o coelho enquanto tomava uma geral. - Mas eu sou um coelho! Os dois guardas truculentos riram. Jogaram Estevão na traseira do camburão e saíram rodando pela cidade. O camburão era abafado e fedia a mijo. Estevão sentia-se enjoado e reclamava de sua sorte quando notou dois pequenos olhos verdes faiscando no breu. Com efeito, era um cavalo. Velho, sujo, mas ainda mantinha sua pose de elegância eqüina. - Te pegaram fumando um, não é coelhinho? - Com esses olhos vermelhos? - Caguei na rua. - Eu segurei o dia todo. Aí não deu mais! – O cavalo desabafou, decepcionado. - Porra, Pernalonga, ta querendo ser engraçadinho comigo, é? O cavalo velho olhou para suas patas já rachadas e mal tratadas. - Ouvi dizer que o que dá sorte mesmo é pata de coelho... Estevão viu os faiscantes olhos verdes se aproximando dele e aí o tempo fechou de verdade. Os policiais ouviram o quebra-quebra, mas nem se importaram. Quando abriram o camburão e viram que o cavalo coberto de sangue segurava as patas mutiladas do coelho pensaram apenas que teriam um vagabundo a menos para fichar.
coisas que acontecem por aí sempre acontecem com
Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 9 sublimes almas
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