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Era uma vez...

Quarta, 11 de Janeiro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais

As baladas eram incessantes, simultâneas e contínuas. Festa toda noite. Na casa do Bolão, da Malu, do Cabeça, da Nenê, da Gringa, do Camarão, do Piruá e na minha. Sempre regadas à vodka e uísque, era o que fazia a nossa cabeça. Todo mundo fumava, todo mundo bebia sem medidas e todo mundo dormia junto, largado nos colchões velhos que eram estrategicamente espalhados pela casa antes de perdermos a noção da hora e do grau de alcoolismo. Ouvíamos Beatles e Rolling Stones, Velha e Jovem Guarda, e alguma música tibetana que uma das malucas tinha trazido de sua temporada mezzo-hippie-zen-budista num lugar exótico qualquer que não era o Tibet.

Antes das aulas, a cerveja era lei. Depois das aulas, regra indiscutível. Durante as aulas, não sei bem. Nunca íamos nelas nos primeiros anos. Quando a coisa apertou, começamos a correr atrás do prejuízo estudando ao som da música tibetana, que ajudava a entrar em alfa, e conseqüentemente a assimilar melhor qualquer tipo de conhecimento.

Nos tempos da faculdade, a vida era outra. Porque dava tempo de viver sem pensar muito. Os plantões eram engraçados, sempre tinha um louco que escapava durante a noite assustando estagiários. Uns pediam mais remédios, e a gente, quando dava, usava um pouquinho. Afinal, loucura é sempre bom.
E falando em loucura, nada melhor que ir de Fusca pra Buenos Aires e trancar os amigos seminus para fora da pousada, depois de fazê-los passar batom e usar cílios postiços no baile de Carnaval. E dá-lhe tequila!

Isso tudo é um pouco do que meu pai me contava de sua faculdade, quando eu era pequena e queria dormir. Época em que eu ainda acreditava que as faculdades serviam pra ensinar a gente a se virar na vida, como foi a dele. Na minha eu fiz muitas contas, me preocupei demais com presenças e vivia cansada porque já trabalhava período integral. Talvez por isso a gente demore mais pra amadurecer, agora. Só vai curtir mesmo depois que acaba o curso.

devaneio de: Sil Curiati | Assume que você babou, vai