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Enfim, o fim
Enfim, o fim
Segunda, 9 de Janeiro de 2006
* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais
Não era apenas mais um trabalho de faculdade: era o trabalho de conclusão de curso e significava o fim dos dias intermináveis de sofrimento, suor e cerveja. Mais cerveja do que todas as outras coisas, mas é sempre bom valorizar o esforço. As seis pessoas do grupo nada tinham em comum, a não ser o fato de não terem sido escolhidos por nenhum outro grupo. E então se uniram, com idéias megalomaníacas, projetos fantásticos e muita vontade de acabar logo com aquilo. Só esqueceram da parte sobre trabalhar duro.
A idéia era promover uma casa de shows. No início do trabalho, um susto: o investimento era tão absurdo que exigiria pelo menos três semanas de shows diários da Madonna para compensar o custo. Até que alguém lembrou: “peraí, porra, é só um trabalho. Não é o nosso dinheiro que vamos investir. É dinheiro imaginário”. E tudo ficou bem de novo.
Falava-se em manobristas, seguranças, monitores, quinze pratos diferentes, decoração futurista e espetáculos de 1º Mundo. A inauguração contaria com dez mil convidados. Um segurança para cada nove pessoas. Um manobrista para cada trinta carros. Monitores para as crianças. Talvez a Xuxa aparecesse para fazer um show infantil enquanto os pais se divertiam. Caviar e champanhe à rodo.
Os meses foram passando e o projeto não andava. “Denise, cadê a planta baixa? Ah, semana que vem ta pronta”. “Denise, cadê a propaganda? Ah, minha mãe sentou no disquete e quebrou. Semana que vem eu trago”. “Denise, e a parte escrita? Ah, meu cachorro comeu o fio do computador. Semana que vem eu termino”. E na semana que vem, depois de matarem Denise, o grupo recomeçou o trabalho.
Eram cinco agora, faltando um dia para a entrega da parte escrita. “Cadê o plano financeiro? O cara ficou de mandar, mas ele viajou. Fodeu”. Encontraram um plano financeiro de um hospital, jogaram lá no meio do trabalho e deu tudo certo. Era só rezar para ninguém ler a parte sobre o custo das seringas.
E veio a feira de administração. Montar estande, fazer maquete, enfiar a maquete no carro, rezar para o vento não levar embora a areia e a grama, sorrir para os professores, levar o micro e descobrir que não tem tomada, terceirizar o estande, esperar o grande dia da apresentação. E então vem a chuva.
Do Diário do Grande ABC: “A forte chuva derrubou uma grande cobertura de lona instalada no pátio do colégio da Fundação Santo André. A cobertura abrigava 43 estandes montados por estudantes de Administração que participavam da 6ª Semana de Administração.”
Depois de resgatar o que restava do estande, ver que um lago tinha surgido na maquete, rir do grupo que promoveu um pet shop tentando salvar os animais à beira do afogamento, só restava uma coisa ao grupo: comer.
E foi na cantina que o impacto do acontecido realmente os atingiu: um grupo de pessoas fotografava um caixão que estava sobre uma das mesas, ao lado de uma porção de fritas e um suco de laranja. Repórteres faziam perguntar, pessoas choravam. Morte? E então chegaram os donos do caixão: o grupo que promovia uma assistência funerária. E foi o fim da manchete do dia no jornal da cidade. Nem tsunami presta no Grande ABC.
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