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Droga de Vida*
Droga de Vida*
Quarta, 22 de Setembro de 2004
* Texto publicado originalmente na seção Pacientes terminais
Jovem de classe média alta, bem apessoado e estudante do segundo colegial da mais tradicional escola da cidade, Marquinhos era incompreendido pelos amigos. Talvez devido ao seu estranho vício de contar lorotas. Tudo começou aos 12 anos, quando levou a foto de sua namorada aos coleguinhas ginasiais. Garota linda, todos admiraram a conquista de Marquinhos. Seu ego não diminuiu nem quando viram o retrato de sua nova namorada à venda na banca da esquina.
Dali em diante, não parou mais. Era incrível o seu poder de reunir os amigos do colégio para contar as histórias da sua rua. Jurava ele que uma vez amarrou a linha da pipa que soltava no poste porque sua mãe o chamou para almoçar. Quando voltou da larica, admirou-se por ver que tinha "taiado" todos os outros papagaios que estava no ar. "E sem cerol", bradava o rapaz.
Não parou nem quando os amiguinhos passaram a chamá-lo de Forrest Gump. No dia que ganhou o apelido, inclusive, jurou que tinha ido à sede da Gaviões da Fiel com uma camisa da Mancha Verde e soltado um "E aí, gambazada. Pega eu". Tudo isso depois de ter saído do Parque Antártica e colocado o corpo a frente do de um amigo que levava pauladas de cacetete de um guarda. "Falei na cara do gambé que ele não passava de um rato cinza", esbravejou o valente garoto, mostrando as marcas das borrachadas que levou do policial. Na verdade, eram marcas de giz de cera.
Os amigos fingiam que acreditavam em Marquinhos. Por dó, divertimento, sei lá, ninguém sabia explicar. Mas como tudo tem limite, não admitiram quando o rapagote inventou que tinha engravidado uma mocinha famosa. Esperaram 14 meses até a formatura pelo nascimento do Marquinhozinho. Mas ele não veio. "Calma, vai nascer mês que vem", insistiu o pretenso papai.
Um colega não agüentou. Imitou um espirro daqueles tipo "Mentchiiira". Marquinhos percebeu. Foi para casa arrasado, pouco se importando com o diploma de técnico em prótese dentária que tinha acabado de receber. Tinha sido pego, sua farsa finalmente foi descoberta. Não resistiu, caiu no mundo das drogas pesadas. Durou nem pouco menos de um ano. Dizem os amigos que o dia fatídico ocorreu depois que ele pegou o carro após usar doses cavalares de psicotrópicos. Colocou a quinta marcha, acelerou até os 180 km/h e, de uma vez, engatou a ré. Foi difícil identificar seu corpo no meio do motor.
*baseado em fatos reais
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